Crítica – The Old Guard

“Quem quer viver para sempre?”, essa pergunta é repetida na canção do Queen para o filme Highlander, talvez o mais famoso longa relacionado a imortalidade, e que ecoa durante a trama. Os personagens de The Old Guard, novo longa produzido pela Netflix, que também conta com guerreiros imortais, traz uma pergunta similar, mas por estarem mais ou menos em paz com essa característica. Suas indagações, assim, são um pouco mais complexas: por quê viver para sempre?

Afinal, ninguém está mais cansado da eternidade do que Andy (Charlize Theron), líder da titular guarda de imortais. Andy não revela sua idade, mas deixa entender que está na faixa dos mil anos. Ela sempre lutou, sozinha ou ao lado de outros, para que o mundo se tornasse um lugar melhor, porém sente que seus esforços foram em vão. Seguindo em frente por pura inércia e incapacidade de ver sofrimento, ela e seu grupo, formado por Booker (Matthias Schoenaerts), Nicky (Luca Marinelli) e seu namorado Joe (Marwan Kenzari), aceitam um trabalho de resgatar um grupo de meninas das mãos de terroristas. Chegando no suposto local onde as meninas estariam guardadas, tudo se revela ser uma armadilha orquestrada por Copley (Chiwetel Ejiofor), ex-agente da CIA que agora trabalha para uma empresa farmacêutica, com o objetivo de estudar o grupo para comercializar a imortalidade.

Além de estarem sendo caçados, outro elemento surge para complicar a vida do grupo: Nile (Kiki Layne), uma soldada do exército americano, que também descobre ser imortal, a primeira após 200 anos sem ocorrências do tipo. A protagonista precisa, a partir disso, proteger a si mesma, seus amigos, tutelar uma nova imortal, tudo isso enquanto lida com suas próprias questões existenciais.

Com exceção do aspecto sobrenatural, há muito que conecta The Old Guard a outro filme de ação do canal de streaming, que se trata de um grupo de pessoas que vivem escondidas tentando fazer do mundo um lugar melhor. Este filme é Esquadrão 6, de Michael Bay. Mas, o filme de Bay fala muito sobre querer acabar com a maldade do mundo, se deleitando em filmar corpos se espatifando, numa imensidão de demora sempre um segundo a mais para mostrar um capanga aleatório sendo esmagado. Já o longa de Gina Prince-Bythewood – até então conhecida por dirigir romances -, apesar de também conter cenas de ação violentas, não as fetichiza, além de sempre enfatizar o grande custo físico que esses momentos colocam no grupo. Eles, mesmo ainda sendo imortais, sentem dor, por exemplo. Não raro vemos personagens se colocando na frente de outros para protegê-los de sofrer, ou até mesmo “morrendo”.

E há até mesmo uma preocupação no impacto que essa carnificina pode ter na vida dos personagens. Afinal, mesmo que seja um filme primariamente de ação, a grande problemática de The Old Guard não é se o equipe vai derrotar a empresa farmacêutica malvadona, até porque isso é mais do que garantido dada a imortalidade do grupo, mas sim se o essa imortalidade tem um propósito. Após ver os corpos que Andy deixou para trás em uma grande cena de luta, Niles se pergunta “é isso que devemos fazer, sem ao menos saber o motivo?”.

É nesses momentos mais íntimos e reflexivos que a produção baseia sua narrativa. Duas horas pode ser longo para um longa de ação, mas durante esse tempo, estamos sempre aprendendo mais sobre essas pessoas. Uma reviravolta em particular ao mesmo tempo que surpreende, também emociona porque sabemos exatamente o motivo de tal personagem ter feito o que fez.

The Old Guard não disfarça suas intenções comerciais, e é bem explícito que este é o primeiro filme de uma franquia, entretanto nunca soa como um “episódio piloto”. Esse caráter introdutório só fica evidente mesmo na última cena. Com um pontapé tão sólido como este, a perspectiva de mais obras nesse mundo é bem empolgante.

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