Crítica – Mães de Verdade

O carinho que Satoko (Hiromi Nagasaku) sente pelo filho Asato (Reo Sato) é evidente. O mero ato dele escovar os dentes preenche a expressão da mãe de ternura. Asato é claramente uma criança doce, que se anima com a mera ideia de ir andando para escola acompanhado do pai e da mãe. Tudo indica uma família saudável e feliz indo seguir com um dia normal, envolvendo escola e trabalho. Ao fechar a porta da casa, no entanto, a câmera de Naomi Kawase se demora, enquanto ao fundo, o telefone toca na casa vazia e escura. Uma ameaça aquela unidade familiar?

Mas, em um primeiro momento, a narrativa não se preocupa com esse sinal, e sim em analisar a relação de Asato, Satoko e o pai, Kiyokazu (Arata Iura), e isso se dá por meio de um ato que ocorre fora da tela. Satoko recebe uma ligação da escola, informando que seu filho, aparentemente, empurrou um colega de classe durante o recreio, que machucou o tornozelo. Asato diz que não lembra de ter feito, tal coisa, enquanto a mãe do colega cobra uma espécie de compensação. “Você acha que Asato o empurrou?”, ela pergunta para seu marido, que não responde diretamente. Essa ideia do seu próprio filho como uma pessoa que você pode não conhecer plenamente é interessante e pouco explorada no cinema.

Mas, novamente, essa não é a preocupação da trama, que é resolvida com um simples telefonema. O grosso de Mães de Verdade, na realidade, tem relação com outra figura que, indiretamente, faz parte daquela família, Hikari Katakura (Aju Makita), a mãe biológica de Asato, deseja tê-lo de volta. Caso contrário, irá contar para todos a verdade sobre a origens da criança, mas também manteria o silêncio em troca de dinheiro. Satoko marca um encontro com ela, no entanto, ao vê-la, percebe que não se trata da mesma pessoa. Quem é essa impostora?

Só que esse confronto entre pais adotivos e a mãe biológica também não é o foco do longa, e eis um dos principais problemas da obra, que parece contar uma série de “vírgulas” narrativas até chegar naquilo que deseja de fato tratar. E isso não é tanto a maternidade em si, mas sim o impacto emocional da busca por ela, no caso do casal adotivo, e quando ela vêm muito precocemente, situação da mãe adotiva.

Lado a lado, essas histórias constroem uma espécie de negativo uma da outra, e tem uma relação fascinante. O sofrimento de Satoko e Kiyakazu vêm da incapacidade deles conceberem um filho de forma natural, devido a uma deficiência fisiológica dele, causando um certo baque a sua masculinidade. Enquanto isso, Hikari sofre por ter ficado grávida de modo bem precoce, e sem o apoio da família, que logo a convencem a colocar a criança para adoção. A construção visual também trabalha essa ideia de oposição muito bem, colocando as cenas em família com ar de “comercial de margarina”, bem solar e viva, enquanto Hikari é envolta em sombras.

Ao apostar em uma estrutura narrativa não linear, que vai ao passado e volta ao presente de modo irregular, e em alguns momentos com pouca diferenciação entre os tempos, Kawase perde um pouco da potência dessas tramas que se espelham, e o resultado em Mães de Verdade divaga entre esses acontecimentos, e nunca articula nada de maneira muito duradoura.

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