Crítica – Mamãe, Mamãe, Mamãe

Em uma das cenas iniciais de Mamãe, Mamãe, Mamãe, vemos as crianças conversando sobre a vida. Além disso, também acompanhamos a bronca da mãe em uma das meninas que resolve ficar tomando ar fresco fora da casa, enquanto todas as outras estão dentro. Isso e mais. Porque é através desse cotidiano que a história do filme é desenvolvida através da cineasta argentina Sol Berruezo Pichon-Riviére. Vemos a trajetória de algumas garotas em uma espécie de sítio ou casa de campo bastante isolada da sociedade. Tudo muda quando, em uma das manhãs comuns, uma das meninas se afoga na piscina. O corpo acaba ficando até que sua mãe o encontre, deixando uma das outras filhas lá.

Nesses caminhos, vemos as meninas refletindo sobre a relação de cada uma delas com seu amadurecimento. Até que ponto aquele acontecimento, o afogamento, pode reverberar na formação de vida de todas? De que maneira, elas podem estar tão conectadas com esse mundo, que acabam por se tornar quase inérteis quando algo do gênero acontece? O que significa ser mulher, ao lidar com uma situação dessas? A tragédia da mãe, que vive agora em seu quarto depressiva, faz com que todos esses questionamentos, medos, problemas, e esperanças, cheguem a cada uma das meninas da casa.

É interessante como não existe nenhuma figura masculina para ser definida por ali. Toda a narrativa pelas personagens é trabalhada sob o aspecto dessa feminilidade que está aflorando em cada uma delas, seja nas minhas velhas, ou nas mais novas. O ponto de fuga de todas é a conversa, o diálogo, a busca pelo crescimento. Existe até um caráter dialético na forma de Pichon-Riviére trabalhar cada um desses elementos, já que ela observa sempre cada cena como uma maneira de entender o desenvolvimento de uma das meninas. É como se fosse um eterno ciclo de aprendizado, em busca de alguma outra coisa.

Ao todo, estamos nos deparando com uma obra do chamado coming of age, ou seja, que abordam verdadeiramente essa passagem da infância para a vida adulta. É curioso pensar até em como vemos crianças pequenas no filme tendo de passar por esse caminho, justamente pelo fato de lidarem com uma situação traumática. É como se estivessem pulando etapas em seu próprio fortalecimento intelectual e psicológico. Dessa forma, vemos até personagens parecidos com trabalhos de Claire Denis, a qual precisam lidar com extremos. A cineasta aqui traz uma menor importância ao lado corporal, deixando mais claro os caminhos sensoriais da sua narrativa – algo diferente que Denis faria. Assim, nessa realização, há paralelos com Lucrecia Martel, especialmente seu filme O Pântano, de 2001.

Nessa produção fragmentada e até bastante perdida, vemos um longa que trata com uma beleza esse olhar da juventude. Apesar dos pesares, há uma tentativa em Mamãe, Mamãe, Mamãe de enxergar um olhar positivo sobre esse novo jeito de ver as coisas que essas meninas – agora mulheres – terão. Propriamente, Sol Berruezo Pichon-Riviére não trabalha em um viés diretamente feminista a narrativa, até se perdendo em certos momentos que busca trabalhar isso mais frontalmente. O ideal para cada uma dessas pequenas meninas é entender seu papel no mundo a partir de agora. E esse papel, perpassa pelo fato de todas serem mulheres. E de todas, ao fim, precisarem se entender como uma só, em suas individualidades.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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