Crítica – Música para Quando as Luzes se Apagam

Uma autora sem nome (Julia Lemmertz) vai até uma pequena cidade no sul do Brasil. Por lá encontra Emelyn (Emelyn Fisher), um jovem trans que está se descobrindo. Quanto mais as conversas avançam, Emelyn percebe realmente que está, na verdade, em outro corpo, se assumindo como Bernardo. Nessa mistura de ficção e documentário, Ismael Caneppele instituiu em Música para Quando as Luzes se Apagam uma narrativa sobre descobrimento. Porém, diferente de casos recentes dentro do cinema nacional, há uma veia muito mais interessante na questão física dessa história, no lado mais sensitivo. Desse jeito, não vemos uma obra que está observando o mundo de uma perspectiva de mudança, mas sim de uma naturalidade.

Caneppele elucida bem esses elementos logo na cena inicial. Cercada de uma câmera que flutua nesse espaço, acompanhamos o andar da autora. Todavia, esse ponto já é fundamental para construir como entederemos essa narrativa que irá se apresentar. Desse jeito, os personagens aqui nunca são colocados de forma a terem condições dramáticas claras para o público. Eles acabam sempre estando em uma espécie de limbo no universo e que serão, em uma hora ou outra, confrontados pelo mundo a sua volta. E, dessa maneira, precisarão assumir uma determinada forma. Essa direção sem clarezas e mais questionamentos coloca o filme sempre de forma curiosa.

São a partir desses instantes de contemplação que observamos a transformação desse protagonista. A maneira como Emelyn começa a se entender corporalmente é algo que também se coloca claro nos primeiros minutos, em alguns diálogos introduzidos sem mostrar quem seriam os interlocutores – uma característica desse mundo de esconderijos, mas que todos precisam se assumir. Dessa forma, suas observações como Bernardo acontecem muito em sequências que trazem um lado até experimental da relação dele com outros personagens. De certo jeito, rememora o feito em Tinta Bruta, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon.

Entretanto, como dito antes, Música para Quando as Luzes se Apagam é um longa que nunca se coloca como claro. Essa questão está dentro do DNA de mistura entre o real e mentira da narrativa. Não sabemos nunca qual elemento colocado ali realmente está tratado de uma verdade debatida ou se estamos sempre sob uma ótica da ficção. É como se todas as personas sempre assumissem uma outra face, que nunca está diretamente interligada com o mundo. Esse outro lado pode simplesmente ser uma mentira, uma tentativa de enganar, de ficcionalizar sobre a própria vida.

É com base nesses debates e da falta de uma formalização clara para um mundo que está sempre se construíndo ao longo dos acontecimentos que Ismael Caneppele coloca Música para Quando as Luzes se ApagamO telespectador é uma espécie de ser que vivencia essa transição esperada pela narrativa. Assim, somos sempre colocados de jeito a sentir as situações, medos e inseguraças sobre as transformações de uma pessoa trans. Ao pensarmos nisso, Bernardo não se torna mais apenas um ser distante, mas parte integrante dessa realidade colocada. Ele, agora, é e não é. Existe e não existe. Mas, afinal das contas, o que é o real? Bom, em um mundo particular de confusões e complexidades, é quase impossível dizer.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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