Resenha – Descender (Volume 2)

Jeff Lemire é um homem trabalhador. Talvez essa seja a melhor definição para o roteirista de diversas HQs recentes e que sua produção não para em momento algum. Além de graphic novels de muita qualidade, ele ainda consegue escrever longas séries, complexas e com muitos desenvolvimentos. Uma delas é Descender, que já tinha a primeira edição publicada no Brasil pela editora Intrínseca. Como não falamos sobre o primeiro volume por aqui, basicamente podemos resumir que a história se passa em um futuro distante. Nela, acompanhamos a tentativa de fuga do robô Tim-21, uma espécie de andróide que adquiriu emoções. O problema é que ele agora é procurado por toda uma galáxia, desde caçadores de recompensa até organizações do governo. Resta apenas para Tim, fugir.

Já nessa continuação, começamos a ver a relação de Tim com aqueles que o defenderam. O pequeno menino agora descobre que faz parte de uma série de andróides, mas sendo o único que acabou por desenvolver sentimentos. Assim, agora ele começa a lidar com as consequências de lembrar do passado, enquanto é colocado no meio de um jogo de poderes e controle por toda a parte.

O desenvolvimento da história nesse volume de Descender é essencialmente especial. Isso porque ele trilha um caminho dentro da ficção-científica de brincar desde histórias de robôs até mesmo traçar elementos da space opera. É nesse sentido que caminhamos para um universo que tenta sempre se mostrar às claras. Lemire nunca tem um verdadeiro interesse de aprofundar de forma diferente talvez alguma questão filosófica, não entra no campo mais de uma questão hardcore. A intenção dele principal é desenvolver esses personagens quase como em microcosmos sociais. E aqui, as seis edições compostas no encadernado trabalham bem a forma como essas correlações vão aparecendo. Talvez o maior exemplo por si seja todo o arcabouço da cidade de robôs em que eles estão.

Esse jeito também é trabalhado de forma exata pelos desenhos de Dustin Nguyen. Através dos pequenos olhares e da edificação dos espaços – algo central aqui, já que se trata de estarmos fora de planetas – são questões relevantes para a maneira como o mundo vai sendo construído. Assim, enquanto, por um lado, nos aprofundamos em entender as problemáticas e os motivos da perseguição a Tim, por outro lado também entendemos as engrenagens. É quase como se o autor buscasse alguns pontos chaves usados por Jean-Claude-Mézières e Pierre Christin na clássica saga Valerian.

Com tudo isso, o volume 2 de Descender abre boas perspectivas para uma história que ainda tem muito em que se desenvolver. As pequenas respostas apresentadas aqui são sempre colocadas com mais dúvidas, como se a narrativa realmente buscasse brincar com os leitores. A todo tempo, temos pouca noção do que realmente pode acontecer, nos fazendo temer por esses personagens que ousam simplesmente sentir emoções. Jeff Lemire, trabalhador do jeito que é, traz as fragilidades justamente nesses lados mundanos, em que os seres apenas falham por falhar. Já Tim-21, uma verdadeira máquina, falha por, na realidade, sentir emoções demais.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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