Crítica – Não Abra!

Ao longo da história, o cinema de terror sempre tratou diretamente com questões sociais. Aliás, é uma das máximas do gênero ser alegórico ou metafórico e brincar com alguns problemas recorrentes em devidas sociedades através do susto, do medo. Até porque o medo é um dos grandes sentimentos humanos, gerando desde uma forte repulsa a alguma coisa até a necessidade de se manter vivo. E, com isso, fatos como racismo, machismo, pobreza, entre outros, podem aparecer através dessa sensação de alguma forma.

Chegando até os anos 2010 e 2020, vemos uma recorrência desses assuntos, porém sob uma ótica diferente. Se em décadas passadas eram diretores brancos que abordavam o tema, com boas intenções – na maior parte dos casos -, atualmente as minorias também ganharam sua força para dirigir essas obras. Talvez o caso mais evidente seja do cineasta Jordan Peele, com Corra!, pelo qual foi indicado ao Oscar. Contudo, outras situações aparecem e também temáticas, que eram renegadas, ganham mais espaço midiático. A xenofobia é uma dessas, que aparece como algo central em toda a discussão proposta por Não Abra!.

Cena de Não Abra!

Dirigido por Bishal Dutta, um artista indiano, o filme retrata a adolescente Sam (Megan Suri) em múltiplos conflitos, como toda fase de amadurecimento. Mas dois se sobressaem: a busca por se entender na identidade cultural indiana da família no meio dos Estados Unidos, e relação com as amizades, especialmente o afastamento da ex-melhor amiga. O problema é que essa confusa conexão faz ela acabar quebrando um pote que a amiga tinha e libertando uma entidade demoníaca que se alimenta da solidão dela.

É curioso como Não Abra! é um longa que beira a dubiedade em todas as situações. A estrutura dele de cenas e cenários, por exemplo, reforça bem esse olhar binário, de algo tipicamente americano confrontando com as tradições familiares. Da mesma forma, toda a narrativa se concentra em duas partes: o terror sugestivo e frontal. A primeira aparece sempre pela perseguição dessa entidade perante a protagonista. Não importa com quem ela esteja, essa pessoa sempre vai ficar em perigo, correndo risco de morte. Isso porque, como dito antes, o demônio se alimenta do seu isolamento. Na segunda, no clímax da trama, em que essa figura deixa de ser algo imaginário ou até lúdico (o que chega a ser sugerido por conta de pesadelos), e passa a ser uma ameaça real.

Porém, se Dutta constrói a encenação como um elemento para transitar esses dois universos propostos, o mesmo não pode ser dito das discussões que ele quer impor. Todas ficam pela metade. A ideia inicial, por exemplo, do choque cultural e do afastamento da amiga por também ser indiana, e essa que sofria xenofobia, é apenas algo comentado por alto. O mesmo pode ser dito das conexões de Sam, todas simplistas demais – até mesmo com a orientadora da escola, Joyce (Betty Gabriel) e com a mãe Poorna (Neeru Bajwa).

Cena de Não Abra!

É impossível dizer que Não Abra! não tem seus bons momentos. A construção enigmática desse ser é talvez o melhor deles, já que parece sempre algo que vai acontecer, porém nunca se sabe quando. O diretor se usa disso para consolidar a própria tensão em si, já que a obra parece não conseguir fazer isso pelas personagens em momento algum. Desse jeito, buscando fazer um final emocionante, parece que o próprio longa trai suas ideias e não entende bem aonde e em qual caminho quer chegar.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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