Crítica – Zana

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Esta talvez seja uma das frases mais da filósofa Simone de Beauvoir – e também uma das mais incompreendidas. O significado é simples: não há nada inerente na biologia feminina que define o papel que ela assume na sociedade. O entendimento social do que é ser mulher se constrói, como, por exemplo, a ideia de que toda mulher deve ser mãe, custe o que custar. Zana tira dessa imposição boa parte da sua tensão, e ainda costura questões de gênero com o traumático passado nacional de Kosovo.

No longa, acompanhamos Lume (Adriana Matoshi), uma dona de casa que vive seus dias cuidando das colheitas e dos animais ao lado do seu marido Ilir (Astrit Kabashi) e de sua sogra. A situação caseira anda um pouco tensa, pois Lume parece incapaz de conceber uma criança, apesar da pressão dos dois, que buscam diversos meio para que ela engravide. Eles, entretanto, nunca parecem se precoupar com as vontades da protagonista. Quando um médico sugere consulta psiquiátrica, a sogra responde “não temos loucos na familía!” e só resta a Lume o silêncio resignado. Com a pressão, ela passa a se sentir cada vez mais sufocada, enquanto aguenta ameaças de ser substituída por uma mulher mais nova.

Lume é uma protagonista que não se expressa muito bem externamente. Ela é tolhida de ter uma atitude própria pelas estruturas de gênero presentes, mas cujo o estado mental nos é evidenciado por seus sonhos e alucinações. Nesses momentos, Zana se aproxima mais do terror, como figuras encapuzadas que a cercam, ou um corpo que começa a expelir sangue por meio do rosto. Porém, esse momentos são pontuais e até mesmo repetitivos, já que alguns seguem a mesma estrutura. Essa é, a protagonista vê algo de relance, esse algo se revela e corta.

A coisificação e apequenamento de Lume se faz presente de diversos modos ao longo do filme, como a constante interação com animais só existem para um propósito. Ou o modo como ela é enquadrada pela diretora Antoneta Kastrati em determinados momentos, sempre aprisionada ou como uma figura minúscula diante do mundo – até mesmo ambos. Após uma tentativa de retornar ao lar paterno, essa é jogada de volta para a casa de sua sogra por seu pai, se referindo a ela como um animal indesejado a ser controlado pelo marido, e a vemos, através de um plano aberto, presa entre as ripas de madeira de uma cerca.

Mesmo mostrando as consequências devastadoras da misoginia na vida da personagem principal, Antoneta cuida para que não se criem figuras vilanescas para quais se aponta facilmente o dedo como culpado. Ela busca estabelecer esses precietos como questões em práticas culturais do Kosovo. Ao ver sua mulher se distanciando e reagindo contra suas vontades, Ilir não vê uma mulher que precisa de ajuda, pois foi convencido por um guru espiritual local que ela está possuída por um demônio.

Por debaixo da aparência serena e solar de Zana, esconde-se uma grande sombra. Por meio desse olhar micro sobre uma mulher e as pressões sociais que nela se impôem, consegue também explorar os traumas de uma guerra recente no consciente coletivo, tanto por meio do terror, quanto do drama.

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