Crítica – Paracuellos (HQ)

Histórias de crianças sofrendo em internatos são bastante comuns dentro da produção cultural. Pinturas, músicas, filmes, séries e quadrinhos famosos já realizaram isso. Um desses casos – e dos famosos – é de Paracuellos, obra clássica espanhola realizada por Carlos Giménez. Publicada ao longo de muitos anos, história é baseada nas experiências infantis do próprio autor, quando vivia em uma espécie de internato na Espanha dominada por Franco. Aqui no Brasil, a editora Comix Zone começa a lançar o trabalho, que será dividido em três partes. As três divididas em histórias, que não seguem uma ordem direta. Há acontecimentos repetidos, que vão e voltam. Entretanto, a essência da publicação é o sofrimento desses pequenos seres humanos.

O personagem do autor, entretanto, não é o grande protagonista dessa história, até porque não há um. Vemos crianças desorientadas sobre o futuro, que não contam com ajuda por parte daqueles que trabalham em um local de aprendizado. A contextualização dentro da edição brasileira do prefácio é fundamental para entendermos como as diversas tramas irão se desenrolar: sem rumo. Afinal, a falta de um foco e qualquer vislumbre de futuro na vida dessas crianças – todas sempre com olhares tristes na arte de Giménez – é o grande triunfo de um entendimento sobre a sociedade. Afinal, estamos falando sobre um país que vivia uma ditadura fascista. Assim, um regime de controle e domesticação dos corpos e pensamentos deveria vir desde a base.

A relação entre esses personagens gira sempre sob a problemática de uma existência dentro do Auxílio Social, local em que estão. A busca por alimentos, seja através de um roubo, ou mesmo de um domínio sobre o outro para conseguir, é um instante fundamental da vida dessas crianças. Os problemas básicos, como até complicações de ir ao banheiro, geram sempre situações catastróficas. É interessante como a HQ se explora em um olhar bastante de meio termo entre uma problemática e a vivência dessas crianças. Isso, especialmente, deve-se ao fato do artista ter trabalhado na história após os acontecimentos, podendo observar sob uma ótica mais profunda aquela realidade. Todavia, é interessante como parecemos estar o tempo todo a beira de um desespero e de mãos atadas por não ter o que fazer sobre aquele sofrimento.

Isso se torna especial conforme acontecem curtas tramas mostrando dias especiais, como o caso do dia de visita dos familiares. Algo que é um dia especial para alguns, torna-se também um sofrimento eterno para outros que não receberão ninguém. Nesse sentido, há um paralelo até interessante de como cada criança irá reagir com Sunnyobra que resenhamos aqui recentemente. A falta de um linha narrativa padronizada para o volume no geral pode incomodar nesses pontos mais chaves do quadrinho, quando momentos mais emotivos ou fortes acontecem. Entretanto, o mais intrigante colocado pelo quadrinista é a capacidade de sobrevivência desses seres, que parecem quase não existir de verdade. A amargura presente a cada conversa, a cada sonho frustrado (como o de ser desenhista ou escritor). Essa exclusão da própria existência causa o sentimento de uma angústia que apenas Carlos Giménez poderia narrar.

O primeiro volume de Paracuellos é uma espécie de graphic novel fechada até por si só. Ao acompanharmos a história de crianças sem rumo na própria vida, nos confrontamos com a própria realidade, de uma existência desoladora em um mundo atormentado. A reclusa de todas as necessidades e até da possibilidade de sonhar, causa um transtorno gigantesco. Apesar disso, a obra não perde um caráter quase comemorativo dos momentos também de felicidade e brincadeiras – apesar de curtos – desses jovens. Apesar disso, ao serem tão curtos, ocupam apenas poucos quadros, dentro da imensidão de sofrimento que o pequeno Auxílio Social da cidade de Paracuellos, na Espanha, é.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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