Crítica – O Mal Nosso de Cada Dia (Donald Ray Pollock)

O mal está realmente a nossa volta? Em alguns momentos da vida podemos nos perguntar se, verdadeiramente, estaríamos em contato com esse mal profundo, com um entendimento do nosso lado “sombrio”. Apesar desses instantes de reflexão, ainda nos deparamos todos os dias com a produção do mal em larga escala, seja por assassinatos a sangue frio, ou até atitudes imorais. Existe um profundo debate psicológico nisso, especialmente ao encarar a maneira como estamos conectados com esse “diabo” em nós mesmos. É a partir desse fragmento, que encontramos a história Donald Ray Pollock em O Mal Nosso de Cada Dia.

Na obra, nos deparamos com diversas histórias, porém duas acontecendo em paralelo. Primeiramente, na realidade, vemos o passado, em uma cidade no interior dos Estados Unidos. A esposa de Willard Russell está perto da morte, e ele agora deve cuidar de seu filho, Arvin. Caminhando para o tempo mais contemporâneo, vemos Arvin crescendo e lidando com todos os problemas e rejeições em sua vida, além de tentar sobreviver nesse universo que agora o consome. Ao mesmo tempo, observamos as caminhadas de Sandy e Carl, uma espécie de “Bonnie e Clyde“, porém de dois serial killers. O mal está permeado em cada ação e cada passo desse mundo.

A capa do livro

A história, que foi adaptada há pouco tempo em um filme para a Netflix, impressiona bastante pelo seu elemento de tensão. A narrativa de Pollock nos coloca como uma espécie de observador onisciente desses acontecimentos, que sempre desencargam em casos de violência. É como se a formação dessa sociedade no interior de um país já violento, fosse uma demonstração clara de como funciona esse universo. Não há receio em descrições profundas. Dessa forma, o autor até espera um certo estômago por parte dos leitores, ao trazer cada pequeno tracejo de morte, por exemplo.

Ao desenvolver cada um desses acontecimentos de forma paralela, há no livro uma busca por uma intenção filosófica e psicológica. Não existe propriamente um debate aberto sobre isso, porém é como se cada personagem merecesse ser analisado tão minuciosamente, que estamos diante de maiores possibilidades sobre quem eles são. Arvin, por exemplo, é encarado como uma espécie de protagonista para todos os acontecimentos da trama. Depois disso, ele tenta se portar como um macho-alfa, um chefe de família, em busca da proteção de todo esse ambiente que foi retirado de sua vida. O autor não aborda isso propriamente, mas deixa entendimentos sobre essas construções mais complexas de cada uma dessas figuras da cidade do inteiro de Ohio.

Acima de tudo, é interessante também como a obra explora uma limiar entre o terror e o suspense. Nesse sentido, há uma clara inspiração em produções que busquem esse caráter do interior, de onde pode sair o pior da humanidade. Paralelos como de Stephen King, que costuma utilizar sempre locais inóspitos ou costeiros para poder desenvolver isso. É um pouco da ideia de onde ninguém está vendo, pode acontecer a pior das coisas.

Caso você esteja em busca de ficar apavorado de medo, esse talvez não seja o seu tipo de livro. A ideia de Donald Ray Pollock em O Mal Nosso de Cada Dia é explorar até que ponto verdadeiramente o mal está a nossa volta. De que maneira lidamos com ele, se podemos, desde sempre, estarmos já com traumas, vivenciando esse temor ao nosso lado. Será que realmente as pessoas mais cruéis vivem por fazer o mal ou isso pode ter sido construído nelas psicologicamente? Nesse jogo de entendimento, lidamos com uma escrita que busca quase um jogo de xadrez para tentar entender qual propriamente poderia ser nossa relação, como indivíduos, com esses personagens. As respostas podem ser únicas para cada um. Todavia, a narrativa persiste na mente de quem lê por muito tempo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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