Crítica – The Wanting Mare

Filme participante do Festival Fantaspoa Online 2020. Para saber mais, veja aqui.

Deixar os mínimos detalhes de uma narrativa para a imaginação do espectador é sempre uma tarefa complicada. Feito corretamente, é capaz de criar as obras mais memoráveis de todos os tempos, como o caso de Twin Peaks. Essa é tão icônica por, em parte, exigir uma certa entrega de quem assiste, deixando para trás uma lógica fria e abrindo possibilidades em um mundo mais especulativo e dúbio. Se realizado incorretamente, o resultado é simplesmente frustrante. The Wanting Mare, em exibição no Fantaspoa XVI, é, infelizmente, esse segundo caso.

O longa é o debute de Nicolas Ashe Bateman e tem como produtor o queridinho dos filmes indie de ficção-científica americanos, Shane Carruth (um de seus projetos mais famosos é Primer). A história se passa em um mundo com toques de fantasia, aonde, na cidade de Withren, habita Moira (Ashleigh Nutt), uma jovem cuja família possui uma maldição peculiar, a de toda noite ter o mesmo sonho, quando o mundo tinha magia. A mãe e avó de Moira carregaram a mesma maldição durante a vida delas. Moira deseja ardentemente sair de Withren e ir para Levithen, uma terra fria do outro lado do mar. O problema é que o navio só para raramente, e a passagem é algo extremamente cobiçado, com pessoas dispostas a matar e morrer por um bilhete para a embarcação.

Ao longo de décadas, acompanhamos a existência da protagonita e suas relações nesse mundo com ares de realismo fantástico – com a fantasia existindo mais em sugestões e implicações ao longo da trama do que de modo concreto. Na verdade, quase toda a construção de universo do longa é na base da sugestão e em uma criação dessa atmosfera um tanto quanto incerta. Bateman consegue acertar o tom, nos apresentando com uma fotografia enevoada, onde as paisagens são sempre difusas ou então vastas, mas sem características muito definidoras, como o grande platô onde Moira habita.

O problema é que quase tudo em The Wanting Mare é vago, sem forma, apenas no superficial. O sonho de Moira, que se apresenta como central a narrativa, quase não é explorado. Isso é apenas repetido nas motivações dos outros personagens nesse microcosmo difuso. São sombras vagando em um mundo rascunhado (o que sempre alude a temáticas interessantes sobre a importância do agora, e deixar o presente passar em favor de um futuro indefinido), mas também não há algo mais profundo nesse sentido, apenas frases soltas. Retornando a comparação com Twin Peaks, se na obra de David Lynch, o funcionamento do Black Lodge e das entidades que lá habitam são incompreensíveis, ao menos Cooper e outros personagens fornecem sustentação para que a trama funcione.

Ao menos, apesar disso tudo, os acontecimentos poderiam ser interessantes, mas Nicolas Bateman se contenta com o mundano, chegando a até mesmo excluir momentos que poderiam ser mais dramáticos – como uma personagem que leva um tiro, sem sabermos quem ou porquê. É evidente que o diretor estreante tem voz própria e imaginação para construir universos únicos e intrigantes, já que há vislumbres disso em seu filme de estreia. O problema é que isso nunca é aglutinado de forma própria.

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