Crítica – The Berlin Bride

Filme participante do Festival Fantaspoa Online 2020. Para saber mais, veja aqui.

A questão corporal sempre foi uma constante no terror. Assim como a morte, especialmente em sua relação com os sentimentos do corpo que irão evidenciá-la. Isso está presente desde O Gabinete do Doutor Caligari, de Robert Wiene, quando nos confrontamos com um homem que torna-se uma espécie de zumbi. Se olharmos para os tempos atuais, as modificações possíveis da pele tornam-se cada vez mais presentes, inclusive com a chegada da tecnologia nesse meio. Contudo, como o terror poderia olhar para esse caminho? Até que ponto nosso corpo é realmente maquinado ou vítima de uma insanidade humana? The Berlin Bride tenta olhar para esses lados.

Na história acompanhamos um reparador de pianos (Michael Bartlett, que também é o diretor do longa) que, certo dia, recebe uma ligação estranha para fazer o trabalho. Assim que percebe a atitude esquisita, ele fica com o pé atrás sobre realmente ir fazer o trabalho. No meio disso, acaba achando um manequim com corpo e rosto de mulher. Intrigado, ele acaba desenvolvendo uma relação complexificada com a boneca, inclusive amorosa.

É interessante como o trabalho de Bartlett caminha sempre em uma tangente do corpo, como apresentada na ideia da sinopse. Os trejeitos de sua atuação sempre caminhando de maneira estranha – especialmente pela mão e coluna -, o parque de nudismo pelo qual o personagem passa, além de, obviamente, o próprio manequim. Contudo, os olhares da câmera parecem sempre buscar essa humanidade nada concreta, mas diversificada. Um dos exemplos é quando a ligação é recebida pelo reparador, vemos um homem falando do outro lado, novamente abordando diversas possibilidades. O que seria o corpo nesse mundo? Até que ponto é possível definir um conceito próprio de humano nisso?

O caminho desse debate encontra-se também na relação de gênero, como é possível perceber na ligação que ele recebe. Parece haver quase uma mescla sobre o que existe e o que não existe, até qual o ponto desses corpos podem coexistir em um sentido também único. Enquanto homens são mulheres, mulheres também podem ser homens. Ao mesmo tempo, podemos também não ser nada, como um manequim. E nossas relações humanas tornaram-se tão fúteis e banais em um mundo contemporâneo na qual o corpo é apenas mais um, que podemos nos apaixonar até pelo nada, como o caso do protagonista. É uma espécie de ciclo sem fim retratado pela trama, como se nunca fosse possível alcançar algum ponto no meio disso tudo. O protagonista – um reparador -, parece ter apenas olhos para reparar o que a humanidade é, em uma ideia quase de transumanismo. Todavia, seu destino parece ser como os outros: apenas mais um.

Michael Bartlett parece, de certa forma, observar que teremos o mesmo destino dos personagens da trama. Apenas com a exploração dos corpos em um mundo fetichista por eles, também seremos mais uma máquina nessa engrenagem. É possível até fazer um paralelo sobre o manequim assim como a Noiva do Frankenstein, em uma relação da falta de um corpo, mas suas complexidades em um universo único. The Berlin Bride é quase um filme catástrofe da geração de exposição do mundo atual. O debate – quase onipresente no mundo contemporâneo -, eleva uma perspectiva sobre nosso lugar e o de nossos corpos no mundo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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