Crítica – O Diabo de Cada Dia

O que é violência?  Essa questão é motivo de reflexão para os pensadores da humanidade desde sempre, com alguns a definindo como uma falha moral irredimível e cuja presença sempre causa danos. Outros a vêm como ferramenta necessária. Se Gandhi dizia que “olho por olho” deixaria o mundo cego, Malcolm X explicava que para abaixar as armas, as vezes era necessário levantá-las. Em O Diabo de Cada Dia, o diretor Antônio Campos argumenta que a violência só exista como parte da vida humana.

Em sua narrativa, que atravessa gerações e cidades, poucos personagens escapam dela, sejam como aqueles que a infligem quanto como acometidos por ela. Willard Russek (Bill Skarsgard) retorna para casa, em Meade, Ohio, após um dos eventos mais sanguinários do século XX, a Segunda Guerra Mundial. Como lembrança, trouxe uma pistola Luger, “a que Hitler usou para estourar seus miolos”, diz para seu tio. A veracidade disso é duvidosa, mas imbue a arma de significado. O instrumento de violência que encerrou a vida de um dos maiores vilões da humanidade. Não é a toa que Willard segue assim a sua vida, devoto a Deus. Ele chega até a construir um altar particular em seu quintal, porém não teme sujar as mãos para proteger sua família do mal. Após um caçador comentar que abusaria da mulher de Willard enquanto este reza em seu altar, o personagem faz questão de, mais tarde, espanca-lo por suas palavras. Isso tudo sob o testemunho de seu filho, Arvin Russel (Tom Holland), que considera aquele “O melhor dia que teve com seu pai”, conforme informa o narrador onisciente da trama.

Evidentemente, isso molda a visão de mundo do jovem Arvin, que, anos mais tarde, após uma tragédia familiar levar a morte de sua mãe e seu pai, passa a morar com a sua vó, Emma (Kristin Griffith), e sua irmã adotiva, Lenora (Eliza Scanlen) – essa também orfã e muito religiosa. O núcleo familiar tem a estabilidade afetada com a chegada do novo e sedutor pastor Teagardin (Robert Pattinson). Em paralelo, o xerife Bodecker (Sebastian Stan) se preocupa com a reeleição, que pode ser prejudicada por sua irmã, Sandy (Riley Keough), que comete comete crimes ao lado de seu parceiro, Carl (Jason Clarke).

A escala da história é algo inédito na carreira de Campos, que até então construía suas narrativas focadas em indivíduos e seus males, como Christine, centrada em uma jornalista suicida, e Simon Killer, que relatava as desventuras de um sociopata em Paris. A transição para uma trama com maior escopo não é tão bem executada. Quase todos os personagens se entrecruzam de uma maneira ou de outra, todavia alguns encontros falham em serem tão dramáticos como deveriam. A seção de Arvin é a melhor construída nesse sentido justamente por ser a que mais tem tempo de desenvolver, e é onde o diretor mais se preocupa em explorar esse universo.

É por meio da jornada de Arvin que as diversas expressões da violência tomam forma, assim como o aspecto religioso da obra é mais explicito. Se as lições de vida de seu pai é algo que o jovem leva consigo, o fervor religioso de seu progenitor resultou em um homem cético de tal coisa, uma visão que Campos compartilha. A atuação de Pattinson como Teagardin é um tom acima da maioria, para evidenciar a farsa da situação. outra cena com outro pastor também envolve certas extravagâncias, com uma câmera mais solta, destoando da rigidez do resto do longa. Em O Diabo de Cada Dia, se religião não te torna um farsante, te torna uma vítima, suscetível a manipulação de outros ou desprotegido das tragédias da vida.

Mesmo que nem sempre bem sucedido de modo dramático, já que nem todos os núcleos têm o tempo necessário para se desenvolverem, o filme funciona mais como uma espécie de parábola que coloca o com quem essas situações acontecem em segundo plano. E o quê e como é mais importante para a transmitir a mensagem de que a violência, talvez, seja tão parte da vida como todo o resto.  

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