Crítica – Mindhunter (2ª Temporada)

Quase dois anos após sua estréia na Netflix, Mindhunter retornou na sexta, dia 16, para sua segunda temporada. Produzida por David Fincher, a série acompanha os esforços dos agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff), Bill Tench (Holt McCallany) e da doutora Wendy Carr (Anna Torv) em estabelecer a psicologia criminal como um método eficaz para a captura de criminosos, apesar da desconfiança geral de seus colegas de profissão.

O grande foco dessa temporada são os assassinatos que ocorreram em Atlanta nos anos de 1979 até 81, na qual 28 pessoas, a maioria crianças negras, foram assassinadas de modo similar. O caso é visto pelo novo diretor assistente do FBI, Ted Gunn (Michael Cerveris), como a chance de mostrar a utilidade da Unidade de Ciência Comportamental em situações reais. A investigação, no entanto, envolve mais do que um simples trabalho policial, e a UCC precisa navegar questões políticas e a tensão racial da situação, resultando em atritos entre os membros daquela comunidade com a unidade, enquanto alguns de seus agentes lidam com problemas pessoais que cruzam a linha entre vida privada e o trabalho.

Contudo, esse ano não abre com esse caso, que é introduzido aos poucos até ser a principal história. Os primeiros episódios lidam mais diretamente com os eventos da temporada prévia, com Holden se recuperando de um ataque de pânico após um encontro com o serial Killer Ed Kemper (Cameron Britter), uma situação que causa transtorno para unidade, na qual acaba de ganhar mais visibilidade com a posição de Gunn de tornar o método da UCC como praxe para todo o FBI, e a continuidade das entrevistas com os serial killers presos. Com a situação em Atlanta ganhando os holofotes, elementos desses episódios são descartados, prejudicando um pouco o ritmo geral da série. O estado psicológico de Holden, tão enfatizado nesse começo, é ignorado, e as entrevistas, antigo cerne da série, perdem espaço.

O foco em Atlanta também resulta nos personagens se distanciando geograficamente, e o seriado parece não ter uma ideia clara do que fazer com aqueles que não estão lidando com os assassinatos. A Dra. Carr, ao lado do agente Greg Smith (Joe Tuttle), chegam a ter seu momento ao sol, conduzindo entrevistas com alguns criminosos, até serem deixados de lado, e a Dra. Carr ganha uma subtrama isolada do resto daquele universo, a deixando completamente desconectada dos grandes eventos da série.

Quem ganha espaço e pode até mesmo ser considerado o protagonista da temporada é Tench, cujo o drama doméstico é o que mais possui ligações com seu trabalho de psicologia criminal, tendo que lidar com a possibilidade de seu filho adotivo, Brian (Zachary Scott Ross), fazer parte da categoria de homens que estuda. 

Apesar de Mindhunter ser uma série muito preocupada com a violência, nós nunca a vemos diretamente, somente através de modo secundário, através de fotografias ou nas consequências, físicas e psicológicas, que ela deixa naqueles afetados por ela. Seria fácil buscar chocar através do gore ou sanguinolência, mas no lugar disso temos uma morbidez apresentada de modo indireto, com uma fotografia focada em sombras e cores esmaecidas, estabelecendo uma ambientação fria e indiferente.

O som também é muito utilizado para enfatizar situações violentas sem, de fato, mostrá-las. Em determinado momento da temporada, Tench entrevista um sobrevivente de um ataque do Assassino BTK, que teve seu rosto desfigurado pelo encontro. Nunca vemos seu rosto diretamente, que está sempre desfocado ou encoberto por reflexos, sinalizando também seu estado mental, disperso e confuso, o som de um trem que passa se torna mais intenso conforme a vítima progride em seu relato. Utilizando som e imagem, o choque fácil de um rosto desfigurado é evitado, mas o impacto da violência não se perde.

Apesar de alguns tropeços iniciais e algumas possibilidades desperdiçadas, Mindhunter permanece sendo uma fascinante exploração do início da psicologia criminal. Além disso, consegue construir um mundo mórbido, com vitórias agridoces e sem respostas fáceis, que nada tem a dever a obras “maiores” de David Fincher. É uma produção na qual segue seus traços muito mais interessados em perguntas do que propriamente em respostas.

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