Daughter e a energia da cena melancólica atual

Na última noite desta terça-feira (14/11), o trio europeu Daughter se apresentou pela primeira vez nas terras brasileiras. Com 7 anos de carreira, a banda liderada por Elena Tonra marcou a noite carioca do Circo Voador na Lapa, em companhia de seu repertório folk, seu clima riffantemente atmosférico e suas letras de um senso nostálgico do que provavelmente nunca aconteceu.

A banda, que já era um projeto solo de Tonra (guitarra/baixo/vocais), foi integrada em 2010 após a junção de Igor Haefeli (guitarra), fruto de uma amizade em um curso de escrita musical em Londres. Originário da Suíça, Haefeli frequentava também os shows acústicos da vocalista, que escrevia músicas para ”lidar emocionalmente com a vida” com suas constantes recriminações na época do colégio. Sendo romanticamente envolvidos e eventualmente incorporando o francês Remi Aguilella (bateria/percussão), o trio subiria do patamar ”gravado caseiramente” para um contrato com a gravadora inglesa independente 4AD, que com mais de 30 anos de renome, carrega maiores inspirações para a sonoridade da banda como a cena post-punk e eventualmente o shoegaze, movimentos musicais de faça você mesmo e de muita ambientação sonora e jovial.

Tendo uma carreira curta em comparação com outros títulos atuais da própria gravadora, o Daughter se sustenta de um fenômeno interessante na música hoje em dia. Com o advento do que chamamos metaforicamente de ”rock triste”, o trabalho mais famoso do trio é a faixa ”Youth”, de seu primeiro álbum de estúdio, If You Leave (2013), que marca hoje seus 136 milhões de visualizações no YouTube por um canal aleatório onde nem a imagem da banda original é atrelada. Sendo eventualmente inserido em trilhas de novelas e séries internacionais, seus atuais concorrentes, que se apegam a sub-gêneros de rock que antes eram por várias vias recriminadas (principalmente pela mídia especializada) ganha cada vez mais espaço no que antes era impossível de ser representado.

(Foto: Queremos!)

Sendo agitado por mais de 600 fãs online com a empresa de organizações de eventos Queremos!, a abertura ficou por conta da conterrânea Mari Romano e seu MPB minunciosamente tropicálio e reggaeístico. Sendo um equilíbrio eclético de clima e ambiente do que introduzia, a cantora deixou a plateia participante agitada até o fim de sua apresentação, com direito a caveira no palco e a também presença do cantor Pedro Pastoriz. A banda não só conseguiu atenção no Rio, mas também no Rio Grande do Sul, onde se apresentou no Theatro São Pedro no dia 16/11. Além do Queremos, a banda fez parte do line-up do paulista Popload Festival, que teve a participação dos conterrâneos Ventre e Carne Doce, o chillwave texano do Neon Indian e os já aclamados do indie pop francês Phoenix. Pra fechar? O rock contemporâneo e o folk experimental de PJ Harvey, retrato de seus influenciados.

Mari Romano (Foto: Queremos!)

Começando o show com a primeira faixa de seu penúltimo álbum de estúdio Not To Disappear (2016), ”New Ways” abre e já levanta uma plateia que, apesar de parecer perecer com o clima das músicas, é amplamente animado, e a agitação comove a banda de modo surpreendente. ”How” e ”Numbers” continuam a sequência do álbum, que faz com que a banda se sinta a vontade com a plateia otimizadamente feliz. Apesar da banda ter lançado seu recente e mais inovador trabalho predominantemente instrumental, o álbum Music From Before The Storm (2017), trilha-sonora oficial do jogo de multi-plataforma Life Is Strange: Before The Storm não fez parte de seu repertório. Músicas do álbum prévio foram usadas na divulgação dos trailers promocionais do jogo. Com todo o clima de fama da banda, parte do que seria interessante instrumentalmente não captaria toda a energia que o público, especialmente o brasileiro, estaria esperando.

”Don’t bring tomorrow cause I already know I’ll lose you” é o refrão da faixa ”Tomorrow”, primeira música do trabalho anterior a aparecer. Com essa divisão de repertório, a banda começa a ficar mais conectada com o público, que arranca sorrisos carismáticos da vocalista. Saindo do clima orquestral anterior, o show segue com o single lento e delicado ”Doing The Right Thing”, que fala amplamente sobre perdas e pressões sociais jamais conquistadas. ”Candles” é o que sobrepõe seu tom, música acústica do começo de carreira com His Young Heart EP (2011), quebra de gelo que o público esperaria sendo a música mais positiva da banda, com direito a uma homenagem a bandeira do Brasil e gritos de ”Fora Temer!”.

Elena Tonra (Foto: Queremos!)

”Winter” é a primeira faixa do álbum e certamente uma das que mais caracterizam o som da banda. Após o grito de protesto, a entrada etérea de tudo que já vimos em lamentos de Slowdive e Cocteau Twins. Parte curiosa do show era a quase nula presença de coros majestosos e celulares pra cima. ”No Care”, balada marcante, é cantada por Tonra sem nenhum instrumento a par assim como em seu vídeo, sendo o único momento em que se dispõe de ter um contato mais ”próximo” com a plateia. Finalizada com o som de aplausos, a volta com seu baixo poderoso em ”To Belong” agita de modo mais brutal o lugar que parecia até um tempo atrás anestesiado com o som crescente das músicas anteriores, seguindo com ”Human”, e o primeiro coro forte marcante do show.

Igor Haefeli (Foto: Mária Karľaková)

Tudo muda quando o riff puro e claro de ”Youth” entra. De repente, vários celulares aparecem e fazem uma crescente muralha brilhante embaixo da linha do palco. Em aviso a imprensa, a organização deixou claro de que só poderiam registrar fotos das primeiras três músicas, mas a sincronia de gravar um trecho de ”We are the reckless, we are the wild youth! Chasing visions of our futures!” falou mais alto. Tão alto que a multidão fez o som do microfone principal parecer um ruído distante, e junto a todo esse lamento, podemos ver de bem longe essa melancolia jovial que rondava por ali, lamentando sobre seus futuros. Dançando. A vocalista não fez mão e logo se entregou ao poder da multidão. Deixou o sorriso nervoso e descontraído ser levado pela cantoria.

(Foto: Mária Karľaková)

O show fecha sua primeira parte com as densas e essenciais ”Smother” e ”Shallows”. Em Smother, os celulares se abaixam e os vultos na frente do palco começam a balançar lentamente. Afinal, cantar sobre querer voltar para o ventre de sua mãe e nunca mais voltar não parece ser uma boa hora pra se agitar em conformidade. A banda se despediu brevemente em ”Shallows”, a faixa mais orquestrada e interessantemente emocional da banda com uma dúzia de pessoas em uma branda sincronia de choro.

(Foto: Mária Karľaková)

A banda volta para um encore especial. Em primeiro momento, só Elena e sua guitarra dão as caras, fazendo uma apresentação solitária em uma versão elétrica de sua música acústica ”The Woods”, segunda aparição de seu primeiro trabalho. A banda se despediu com ”Fossa”, que apesar do nome soar o mais contraído possível, marca uma das melodias mais abertas da banda até agora.

Recepção pós-show (Foto: Queremos!)

Com a força dos fãs brasileiros e a marcação em diversas mídias com seu estilo influente de mesclar a nostalgia acústica com a melancolia dos efeitos de pedal de guitarra, Elena, Igor e Remi são muito claros com suas decisões, e dizem que se não for ”divertido”, não fariam. Por mais curioso que isso possa parecer, o avanço do ”arena rock” e as síndromes de estrelato não afetam a jovens compositores tão interessantes que se mantém no patamar independente, que mesmo na época de recriminação do que é originário a seu estilo musical, nunca deixaram de proclamar seu contato fiel com o público. A recepção pós-show foi calorosa, e quem esperou pela conversa a encontrou. A banda recebeu uma fração dos fãs após um tempo em backstage, e até tirou um tempo pra conversar sobre a música brasileira e sua conexão.

Em tempos onde músicas com samples ”tristes” e letras de niilismo obsoleto, a recepção do Daughter no Brasil fica marcado como prova de que chorar um pouquinho com o que não é pretensioso vale, é só pedir.


Vídeo do Queremos! com uma pequena entrevista com a banda:

 

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Clarissa Ferreira

Clarissa. Ou Setty. Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e satirista em tempo integral. Nerd pra umas coisas e punk pra outras.

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