mãe! e a arte do perturbador enigmático

    Esse texto contém spoilers de toda a trama e suas possíveis interpretações

mãe! é um dos filmes mais bizarros e incríveis não só da última década, mas do cinema de uma forma geral. Serviu de vez para deixar o nome de Darren Aronofksy registrado como um dos maiores cineastas da atual geração. Tendo gostado ou não, esse longa com certeza mexeu com o seu psicológico de alguma forma e era isso que o diretor buscava fazer, mas vamos um pouco mais afundo nessa trama. A obra possui sua camada básica, que não pode ser analisada, já que tudo ali é uma alegoria bem clara a história humana contada pela bíblia, desde o Gênesis até o Apocalipse, porém muitas outras ideias e observações podem ser retiradas daquela trama. E é isso que pensaremos aqui.

De um ponto de vista alegórico básico, a narrativa demonstra a casa como o mundo, a personagem de Jennifer Lawrence como a Mãe-Natureza e Javier Bardem como Deus (já que seu nome é Ele, isso mesmo, com “E” maiúsculo, demonstrando claramente ser uma divindade). Eles vivem a nova criação do mundo – a reforma dela feita pela mulher -, mas acabam sofrendo o primeiro baque com a chegada do personagem de Ed Harris (intitulado Homem), mais conhecidos pelos cristãos como Adão. Logo em cenas seguintes é possível ver a mulher olhando o Homem no banheiro com um ferimento na costela. O que acontece na manhã seguinte? Aparece Eva, interpretada pela incrível Michelle Pfeiffer, que teria surgido da costelas de Adão.

Na sequência do longa, a todo momento a questão do constrangimento é feito de maneira extremamente incômoda para a mãe, que se vê com medo da situação. Sendo assim, vêm a vontade de “comer o fruto proibido”, que na trama é representado pelo cristal no quarto de Deus – quarto esse que representa o Paraíso. O objeto acaba se quebrando pela insistência da mulher, assim como na Bíblia, quando comem o fruto. E o que o casal faz em seguida? Isso mesmo, realizam sexo, demonstrando o ser humano sendo cada vez mais pecaminoso, levado apenas pelo desejo da carnal, como se fosse algo totalmente fora da realidade da personagem de Jennifer Lawrence.

Após um tempo, outra analogia aparece em nossa frente de uma maneira bem clara: a primeira morte, a primeira mancha de sangue humana, quando Caim mata Abel. Os filhos do casal que chegou na casa aparecem de uma forma totalmente inesperada e é o momento que o mais velho mata o mais novo, quando ocorre também do sangue desse abrir um buraco no chão e sujar a lâmpada. Quando essa explode, tudo é manchado de sangue, assim como a humanidade a partir dali. Em seguida, novos humanos vão chegando, até que chega o momento do dilúvio, que é representado pelo instante em que o cano de água é quebrado, por própria insistência dos homens do lugar, o que faz cair a chuva em todos.

Na cena seguinte, mãe briga com Deus e eles “supostamente” realizam sexo – já que em nenhum momento isso é mostrado -,  o que faz com que ela esteja grávida na manhã seguinte e ele escreva sua nova obra-prima, que é representada pelo Novo Testamento. Esse momento é importante pois, além dela ficar grávida sem aparentemente eles terem sido levado à vontade carnal, ela se mostra ainda pura na manhã seguinte com uma roupa branca, como uma representação de Maria, a mãe virgem. Isso tudo acontece ao mesmo instante, ou seja, as duas novas maiores criações divinas são feitas juntas.

Por um tempo ninguém aparece dentro da casa e a vida do casal continua normalmente, mas, mesmo assim, pessoas ao redor do mundo começam a repopular a Terra. Sendo assim, o casal se preparava para uma belíssima janta e são abordados por alguns fãs, novos adoradores, que começam a vir em grande quantidade e qual a frase que Ele fala para sua amada? “Eles adoraram a obra, e o mais interessante é que todos interpretam de maneira diferente”, algo como um indício do surgimento das religiões. Mais e mais pessoas começam a chegar e, nesse instante, a personagem da agente aparece – interpretada por Kristen Wiig e creditada como Mensageira de Deus – querendo usar um marketing em cima da situação e, futuramente, matando outras pessoas, como uma espécie de Igreja ou religião que de início prega a paz, mas acaba por buscar a guerra e eliminar quem pensa diferente.

Depois disso o filme se torna uma grande loucura, mas que possui um completo sentido narrativo. É o caos controlado e extremamente absurdo, mas que demonstra a humanidade ao longo tempo e com ela vimos e ouvimos pela primeira vez uma música – já que essa não foi inventada pelas divindades e sim pelos humanos.

Pensando em uma camada inicial de interpretação, a obra poderia ser sobre isso, uma grande releitura da bíblia, mas dentro desse meio, Aronofsky chega a muito mais e discute diversas ideias, sentimentos e anseios próprios, além de falar muito sobre nós mesmos.

De cara, é possível perceber o comentário claro sobre a questão ambiental. Ele joga na cara do público que a nossa casa – o mundo – está morrendo, mas ele vai continuar, só que nós não estaremos mais nele. A metáfora de uma caSa e da mãe-natureza se sentir invadida é incrível, já que faz o público se relacionar, perguntando-se: por que estão entrando na casa dela pegando tudo? E aí é o grande ponto da questão, já que é a humanidade que está fazendo isso. Entramos no mundo e destruímos tudo, pegamos espaço achando ser nosso, criamos guerras, xingamos os outros, disputamos um pequeno pedaço de uma celebridade. Tudo isso faz com que o grande comentário social e crítico do diretor se torne muito mais que apenas uma questão bíblica, mas sim humana. Os seres humanos estão destruindo tudo e, continuando assim, seremos extintos e tudo irá recomeçar. Ele coloca isso na cara dos telespectadores, por isso gera tanta revolta.

Outra questão, já citada em cima, é o lado da fama, que é explorado em cima do personagem de Javier Bardem. Ele, cego pelo sucesso e pelos seus fãs, abandona cada vez mais sua esposa, a deixando isolada dentro daquele imenso e pequeno mundo. Essa questão reflete um pouco também o fator da mulher na sociedade – algo que é explorado em também duas outras cenas: a da prisão de mulheres (que pode ser pensada como aborto, exploração de menores e etc.) e também a que agridem a mãe (uma clara representação de tudo que a mulher sofre). A fama sobe tanto sua cabeça que ele quer mostrar sua criação, ou seja, seu filho, para a multidão, gerando uma imagem de um Deus também mesquinho e totalmente orgulhoso.

mãe! é uma das obras mais enigmáticas dos últimos tempos no cinema. Ela desperta um milhão de emoções e sentimentos com cada um que assiste e, o mais impressionante: diferentes sensações. É mais que um filme, é uma grande experiência cinematográfica que será lembrada em muito tempo e merece ser re-assistida por vários e vários anos.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido… e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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