O legado de Dig Me Out do Sleater-Kinney com o rock feminino

Nesse dia 8 de abril, o terceiro álbum de estúdio da banda Sleater-Kinney completará 20 anos de existência. Desde o começo da banda, o que se firmava um trio de mulheres que nunca teve nenhum compromisso com a mídia em geral, viria a ser destaque não só do underground como do rock internacional da época. Com a expectativa de ficar na borda independente de Portland, o tempo prova o contrário, e desde então, o álbum tem sido símbolo de muitas representações desde seu lançamento.

Como participantes do movimento riot grrrl, movimento que fundou a resistência das mulheres na cena punk em geral com advento da 3ª onda do feminismo, o Sleater-Kinney estava pronto pra quebrar barreiras se juntando em dezembro de 1996 ao selo independente Kill Rock Stars, que já tinha sua reputação por dar suporte a artistas da cena Pacific Northwest como Elliott Smith, Quasi, Bikini Kill, BratmobileHeavens to Betsy (antiga banda da vocalista Corin Tucker), Unwound entre outros.

Nesse período, começaram as gravações de Dig Me Out. A nova baterista seria Janet Weiss, que já tocava com o Quasi e fazia participações como apoio a seu amigo de longa data, Elliott Smith. Após exatas uma sessão de teste, Corin e Carrie ficaram abismadas com a personalidade e sonoridade que Janet tinha e a convocaram na hora. Os singles do álbum foram lançados durante o ano pela Matador Records, também conjunto suporte das mais influentes bandas da época.

No dia 8 de abril de 1997, Dig Me Out sairia, e quebraria o silêncio que o movimento feminista musical tinha implantado a tanto tempo no underground e se destacaria não só como punk mas uma coisa a frente, em especial em Portland, Oregon. Na semana de lançamento, o álbum foi aclamado por variados tabloides e críticos já consagrados no ramo. A banda daria suas primeiras entrevistas abertas sobre o álbum, ao mesmo tempo que tentaria se encaixar em padrões mais universais e populares de música como cair em revistas de fofoca. Mas isso a gente deixa pra uma matéria a frente, não?

 

Começando com a faixa título ”Dig Me Out”, um riff cru e uma porrada sem filtros com Corin reforçando ali o que ela sabe fazer de melhor: exclamar do modo mais verdadeiro possível. Falando vagamente sobre observações de relacionamento e esquecimento, a música tem seu lugar especial no álbum como uma das músicas mais descompromissadas e cool dos últimos tempos.

Seguindo com ”One More Hour”, a banda começa uma batida lenta mas estridente enquanto cantam melancolicamente sobre o breve romance que as duas vocalistas tiveram durante o começo da banda. A música mais heartbreaking do disco ainda sim tem seu destaque por inúmeros motivos e surpreendentemente um ar de superação agradável a todos os ouvidos.

”The Drama You’ve Been Craving” e ”Heart Factory” são pares muito interessantes que relatam a indecisão corriqueira e a dependência crescente de anti-depressivos a par com ”Words and Guitar”,  ”It’s Enough”, e ”Little Babies”, que marcam lamentos mais rápidos e crescentes e puramente divertidos durante a metade do disco até chegar a parte final, com o protesto agressivo de ”Not What You Want”, esmaecendo ao ”Buy Her Candy” e ”Things You Say” até chegar na balada punk ”Dance Song ’97” e terminar no que eu chamo de um dos protestos mais simbólicos do rock, ”Jenny”. O poder dessa música é tão intenso em si que não bastam mais do que 5 linhas de frases completas em que a batida da bateria e a guitarra estridente e chorante não faça você perder as rédeas ao pensar em tantas Jennys no mundo. Essa é a magia do álbum!

Uma ode a mulheres esquecidas no tempo, papéis de gênero, geração prozac, cultura de consumo e o padrão dominado pela cena indie rock masculino. O álbum, cheio de melodias rápidas e viscerais performadas pela criativa guitarra Rickenbacker de Carrie Brownstein, marcaria ali um momento histórico na música para as mulheres, e afirmaria a posição dela como uma das mais interessantes e talentosas guitarristas dos últimos tempos. Corin Tucker e sua guitarra em apoio rítmico a sua colega divide os vocais principais mas faz um show a parte com sua altura vocal que é conhecida ainda hoje como uma das mais emocionais, tocantes e brutais do rock. Janet Weiss não deixa pra trás essa parte na história, marcando sua primeira performance gravada com a banda com baterias explosivas, que fazem o The Kinks ficar com vergonha de não ter tomado os esteroides, e sua medalha como uma das maiores bateristas de todos os tempos abraçadas, uma definição de power trio.

E como toda a boa referência… A arte original da capa é totalmente inspirada no álbum de 1965, o The Kink Kontroversy.

O produtor John Goodmanson afirmou: ”a possibilidade de trabalhar sem um baixo só aumenta a potencia e a personalidade das guitarras”, firmando assim uma sonoridade padrão à banda, principalmente em suas participações futuras com a mesma.

Dig Me Out continua na mente de todas as jovens que não tem apego ao status quo. Sendo reconhecido como um dos melhores álbuns não só dos anos 90 mas também de todos os tempos, o Sleater-Kinney acha e confirma pra sempre a sua importância musical com sua volta em 2015, após 10 anos de hiato. Corin, Carrie e Janet nunca pararam de atuar na indústria, continuando trabalhos antigos como o Quasi, formando novos como o Wild Flag, Corin Tucker Band e Filthy Friends e botando pra frente o que até 20 anos atrás não era mais do que um abuso de autoridade por parte de uma voz feminina. Política, consumo, depressão, abusos e desigualdade de gênero têm sido pautas mais fortes e mais inclusivas do que eram na época, e a banda tem feito seu papel na história sem escrúpulos, muito soco na cara e coragem pela frente.

 

Como Tom Breihan da Stereogum disse: ”A melhor banda de rock dos últimos 20 anos. Sério! Quem está em competição aqui?”

 

 

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Clarissa Ferreira

Clarissa. Ou Setty. Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e satirista em tempo integral. Nerd pra umas coisas e punk pra outras.

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