O Mundo Sombrio de Sabrina: Segunda parte empolga, mas repete erros da primeira

Atenção: Este texto contém spoilers. 

Estrear uma série como produto original Netflix, nos dias de hoje, pode ser uma maldição ou uma benção. Independente da qualidade, a produção vir a criar uma pequena e consistente base de fãs e ser cancelada na segunda ou terceira temporada, ou ter a sorte de cair nas graças do público, virar o assunto da semana no Twitter e garantir vida longa bem no começo de seus dias. O Mundo Sombrio de Sabrina foi o segundo caso.

A série é centrada na icônica personagem da Archie Comics, popularizada nos anos 90 por Melissa Joan Hart na sitcom Sabrina, A Aprendiz de Feiticeira. A versão da Netflix, no entanto, é uma adaptação mais sombria e voltada para o terror, inspirada nos quadrinhos The Chilling Adventures of Sabrina, publicados em 2014. Na história, Sabrina Spellman é uma bruxa mestiça, filha de pai bruxo e mãe humana. Ao completar dezesseis anos, ela deve assinar O Livro da Besta e entregar sua alma e devoção ao Diabo. A primeira parte acompanhou o dilema enfrentado pela jovem feiticeira entre escolher o mundo humano, com seus amigos, ou o mundo das trevas, com sua família. No entanto, forças sombrias triunfaram sobre Sabrina, obrigando-a a abrir de seu nome e sua alma para salvar sua cidade.

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O primeiro episódio não perde tempo em apresentar as mudanças da protagonista e até mesmo do cenário geral da série. Sabrina agora está 100% focada em ser uma bruxa, ainda que tenha suas dúvidas sobre a fidelidade que prometeu ao Senhor das Trevas ao assinar seu nome no livro. Conforme a temporada avança, Satã parece ter planos realmente sombrios para a bruxinha, notícias nada boas para Madame Satã (Michelle Gomez), que embora ainda deseje agradar seu mestre, descobre em sua vida falsa algo que ela já não sentia há muito tempo.

Enquanto isso, o clima esquenta na Igreja da Noite. Embora isso pareça ser bom para Ambrose (Chance PerdomoPadre), os planos de Padre Blackwood (Richard Coyle) para os membros do coven, embora constantemente ameaçados por Sabrina, parecem se encaminhar para um rumo que nem mesmo Satanás aprovaria.

O segundo ano de uma série geralmente possui maior liberdade em termos de enredo, já que as apresentações de personagens, cenário e universo foram devidamente feitas na primeira temporada. Aqui não é diferente. Tanto o mundo dos humanos e o mundo das bruxas tem um cenário e narrativa fixas ao longo da temporada, desenvolvidas desde o primeiro episódio. Com a protagonista afastada de seus amigos mortais, os roteiristas entraram a fundo nos rituais e costumes dos feiticeiros deste mundo. O problema é que, na primeira metade dos nove episódios, isso parece ser apenas para encher linguiça. Com exceção do capítulo que abre a temporada, The Epiphany, alguns episódios parecem obedecer à seguinte fórmula: uma rotina sobrenatural é apresentada, Sabrina absorve e decide como vai lidar com esse ritual: ela deve se encaixar neste mundo, que oferece costumes que vão contra muitos de seus princípios, ou deve desafiar as regras? É exatamente o que aconteceu na primeira fase, com a única diferença sendo a agora extinta tentativa da protagonista de equilibrar o mundo dos humanos com os bruxos, ainda que vez ou outra Sabrina decida dar as caras no antigo colégio em que estudava.

Assim como suas viagens indecisas à vida antiga, outro problema de inconsistência na série é o caráter da personagem Prudence (Tati Gabrielle). Se em alguns ela se mostra como uma aliada, em outros ela assume quase totalmente o posto de antagonista. Isso é recorrente desde o começo, transformando o que poderia ser uma das figuras mais fascinantes desde mundo, com um dilema interessante a ser desenvolvido, em um mero plot device: ela age conforme a trama do episódio pede. É o contrário, por exemplo, da turma “normal”: Harvey, Theo e Roz, os amigos humanos. Ainda que vez ou outra possam parecer irritantes, as ações do trio interpretado por Ross Lynch, Jaz Sinclair e Lachlan Watson são compreensíveis diante do cenário em que se encontram. O destaque desses três fica para Theo, com uma abordagem sensível para a mudança de gênero do rapaz. Nem mesmo o desnecessário romance entre o ex da protagonista e sua melhor amiga incomoda tanto.

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Essa nova temporada se encontra mesmo a partir do sexto episódio. O ritmo é contagiante quando Sabrina e seus amigos descobrem um segredo que pode ameaçar não só a cidade em que moram, como todo o mundo. A partir daí, os roteiristas mergulham de vez na mitologia sinistra proposta pela direção, intercalando elementos fantásticos com o tom sombrio e ainda revelando uma conexão principal de eventos e personagens que faz-se mais do que necessária para o andamento da história. Kiernan Shipka lidera o elenco com muita facilidade e carisma, talvez se encontrando de vez em sua Sabrina Spellman. Além disso, as críticas ao machismo intrínseco à religião e como ela pode (e ainda o faz) oprimir as mulheres que a seguem são muito bem feitas através do personagem de Richard Coyle.

Portanto, ainda que venha a cometer alguns deslizes no começo, a segunda parte de O Mundo Sombrio de Sabrina consegue superar a primeira em termos de ritmo e história e se torna incrivelmente empolgante. Se você já gostava antes, é possível que vá arrancar os cabelos episódio ou outro dessa vez. É com certeza mais um acerto a longo da prazo da Netflix.

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