Peterloo é um retrato histórico sobre a brutalidade na política

A transferência de fatos históricos para a sétima arte talvez seja uma das formas mais atuais que o ser humano já concebeu de manter a história viva. Seja por meio de relatos científicos ou até mesmo contos passados entre gerações, é possível notar que momentos importantíssimos acontecidos em nosso planeta nunca tiveram um real destaque com seu impressionante passado. Uma dessas histórias, por assim dizer, é o massacre de Peterloo, ocorrido na cidade de Manchester, Inglaterra, em 1819. E o mais incrível de tudo é o fato desse gigantesco acontecimento – extremamente marcante para a Europa – denota traços não esquecidos pelos governantes até os dias atuais.

É complicado retratar apenas o massacre em si, por isso o filme retrata um pouco dos eventos que antecederam o ocorrido. Para isso, o cineasta Mike Leigh, em vez de focar em um protagonista, busca mostrar vozes na multidão, sempre sofrendo pelo descaso governamental e a fome. Ele consegue passar muito bem todo esse sentimento da época, sempre aprofundando mais nos sofridos (pela circunstância) diálogos, e de como tudo chegou até ali, com a cena inicial dentro da batalha de Waterloo. Ao realizar esse refúgio de vozes indignadas dentro da multidão, Leigh causa, a priori, um desconforto proposital dentro do público, por não saber e não entender tão bem toda essa crueza perpassada em tela. Todavia, essa questão se torna quase um calcanhar de aquiles, para uma trama com diversos personagens diferenciados e sem um desenvolvimento muito grande. A problemática se dá quando o diretor busca entender a revolta por ângulos individuais e não coletivos, causando uma eterna falta de relação, como a da cena final.

A narrativa possui um lado claro de compaixão aos trabalhadores, pelas suas péssimas condições de vida. Enquanto esses são retratados sempre de forma extremamente complexa, e sem praticamente defeitos, a corte real inglesa e o judiciário são mostrados como sedentos pelo poder, tentando destruir a manifestação. Esse maniqueísmo escolhido pela direção causa momentos extremamente estonteantes, como as reuniões do grupo de reformistas, sempre filmada com uma câmera no meio da multidão, para gerar uma sensação de pertencimento daquele povo. Já a classe dominante sempre é vista de uma forma distanciada pelo olhar da câmera, sem muitos closes e totalmente distantes, sendo realmente uma parte de fora de toda essa estrutura. É intrigante como Mike constrói um sentido na obra apenas por esses pequenos movimento de câmera, que é apresentada mais estática do que de uma forma intrínseca para o desenrolar de tudo.

A cenografia, de Suzie Davies, e a direção de arte, de Jane Brodie, merecem destaques a parte pela reconstituição do ambiente perfeita. Todos os pequenos detalhes se tornam importantes para o reconhecimento dessa histórico, como realmente um objetivo de retratação de uma realidade. É óbvio que a pesquisa realizada deve ter sido exaustiva, mas isso transforma os pequenos momentos de extrema sujeira em palpáveis. A organização de locação dentro da sequência da batalha ainda se mostram mais exuberantes, visto que há uma construção do ideal pelas pequenas vielas, como se sempre a rua em si clamasse tudo aquilo colocado nas vozes de alguns personagens. A fotografia de Dick Pope aumenta todo esse fator, com um sentimento provocado por uma luz presente dentro dos cenários, representando sempre esse clamor de esperança por dias melhores.

O momento do massacre é marcado por um olhar extremamente aguçado de Mike Leigh. Ao invés de trazer tomadas extremamente fechadas e focar na própria dor pelas feridas, ele prefere buscar certos respiros para a audiência dentro da confusão, como o momento de um soldado reclamando da maldade do outro ou das mulheres reclamando da brutalidade. É claro que essas pequenas situações se extrapolam dentro do conjunto final desse momento, mas é exatamente esse o objetivo. O impacto acaba sendo muito mais relevante quando pequenos instantes se juntam e formam algo ainda mais temeroso e maior. Todavia, sua câmera não teme em mostrar a chacina ocorrida, sempre buscando ângulos à altura das pessoas – e nunca dos cavalos dos oficiais – trazendo essa sensação de sufocamento no ambiente. Ainda há um destaque especial na cena de uma volta em quase 360º, mostrando uma correlação de forças sempre não equiparável, além de trazer uma visceralidade para os conflitos do período, algo não alcançado eficientemente por Os Miseráveis, em 2012.

Peterloo é um filme extremamente marcante, mais pela sua mensagem e pela sua forma do que a narrativa em si. Ao buscar os grandes momentos, acerta-se em sempre trazer um olhar para o público seguir, sempre buscando sentidos dentro da mise-en-scène. O problema acontece nas situações mais comuns, na qual os personagens nunca possuem um peso necessário para esse catapultamento, fato enfatizando ainda mais pela dicotomia de bem/mal da trama. Não que essa seja uma decisão equivocada dos pensamentos do diretor, o problema é permitir uma certa descrença no sentido de ideia do longa em si.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *