A Casa que Jack Construiu é uma obra-prima sobre arte e destruição

É fato que existem diversos cineastas ao redor do mundo trabalhando a ideia do choque pelo choque. Assim como há outros que preferem entender esse choque em um âmbito mais filosófico. Lars Von Trier está no segundo grupo, sempre exibindo uma violência para poder entendê-la na sequência. A Casa que Jack Construiu retrata a história de um serial killer que – relações com o infame Estripador britânico não são mera coincidência – se chama Jack. Von Trier faz deste filme sua grande obra para trabalhar a temática supracitada, para também entender como a arte entra nesse meio.

O longa possui dois momentos principais entrelaçados: Jack contando a história de alguns dos seus assassinatos e intensos diálogos entre o mesmo e um homem chamado Virgílio (Bruno Ganz), essa última praticamente toda realizada em voice-over, sendo seu interlocutor. É a partir desse panorama que Von Trier entrelaça diversos questionamentos pelos atos do protagonista. Com essas discussões, Virgílio sempre traz uma perspectiva diferente, “menos cruel”, por assim dizer, visto que o protagonista enxerga o assassinato como uma arte. Esses comparativos são realizados de forma extremamente dinâmica e até satírica com a montagem de Molly Malene. Todavia, em nenhum momento há um julgamento moral sobre o atos praticados, todos são colocados para fazer o público realizar esse tribunal. Isso engradece essa extrema confusão produzida dentro da película, sempre criando situações ainda maiores do prometido em uma sequência anterior, quase levando a quem assiste para uma eminente perturbação.

A direção estabelece uma tensão, sempre crescente, dentro das cenas através da utilização de câmeras extremamente coladas nos atores. A fotografia também está sempre deixando espaços negativos dentro dos diálogos. Isso aumenta ainda mais a relação da audiência com os assassinatos, pelo caminho da construção ser tão pesada que não é possível saber até onde pode chegar. Dentro disso, Lars ainda consegue fazer piada com o TOC de Jack com limpeza (como na sequência da segunda morte em sua repetição de identificar se não havia deixado marcas de sangue) e com seu perfeccionismo (marcado pela demolição sempre ao iniciar a construção de uma casa). Esse lado cômico, porém, vai se perdendo ao longo do caminho, gerando na audiência uma relação de crítica ao que está sendo realizado pelo protagonista, além do aumento no nível das mortes e das situações após ela. Por exemplo, a retaliação do menino congelado.

Há um papel de discussão extremamente pungente sobre o estado na arte nos dias atuais. Ao realizar um filme enérgico, mesmo com 2h30min, é trazido quase uma crítica ao sistema por dentro dele. Quando se põe em tela um serial killer que pensa assassinato como forma de arte, levanta-se o questionamento: até onde o pensar artístico pode levar? Mas, principalmente, até onde vai o papel humano na criação?

Se os seres humanos por si só são totalmente autodestrutivos contra si mesmos, por que a arte também não poderia ser a destruição e a morte? Em um determinado momento, um diálogo traz uma história sobre o tigre e o cordeiro, falando sobre o primeiro ser totalmente agressivo/instintivo, enquanto o outro seria passivo e vivendo sua vida tranquilamente. Essa analogia clara aos dois lados da essência própria do homem revelam a indagação: por que Jack seria diferente de qualquer outro ser humano? Visto que – isso é mostrado no longa explicitamente – nós elegemos sanguinários e assassinos ao poder, além de pessoas os venerarem até os dias atuais.

Explicitamente, há ainda um destaque para esses quesitos artísticos nos momentos finais, no instante em que o personagem passa por um inferno real e metafórico. Nessa sequência, inclusive, faz-se uma recriação do quadro de Eugène Delacroix, A barca de Dante. Todo esse momento, bem lúdico, serve quase para uma indagação interna do nosso ser e da nossa existência. Von Trier quse coloca na cara do público: será que somos totalmente bons ou totalmente ruins? Nosso lado animalesco pode surgir a qualquer segundo ou apenas para alguns? Se o cristianismo é o dominante, vamos todos ao inferno? Esse é o ápice do único momento de culpa de Jack, na qual ele veste uma manta totalmente vermelha, representando esse sangue derramado e o sentimento de ódio por essa mesma culpa – fato revelado em uma conversa anterior na trama, falando sobre um homem passando embaixo do poste. Essa é a constatação de uma face perversa e cheia de remorsos de um personagem amoral por sua natureza perversa.

Nem tudo, no entanto, são flores para essa narrativa. Conforme a contagem de corpos aumenta, há um retorno para alguns momentos anteriores seguidos de discussões mais aprofundadas, todas pontuadas pela música “Fame”, de David Bowie. O grande problema dessa extrema repetição (que some perto dos últimos 30 minutos) é um inchaço provocado, transformando o grande período de tempo em algo um pouco exaustivo, já que a própria trama é pesada o suficiente pelo teor de sua história.

A Casa que Jack Construiu é o trabalho da vida de Lars Von Trier. Muito mais do que um simples filme, é uma obra-prima sob o estado crítico da arte dentro de uma sociedade marcada pela falta da observação. Se o cineasta poderia buscar algo mais contemplativo para poder gerar essa crítica, ele prefere gerar uma produção teoricamente comercial para tratar de temas mais revelantes. E o mais incrível de tudo? Isso não é citado em momento nenhum.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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