Resenha – Spinning (HQ)

“Fui uma patinadora dedicada e competitiva por doze anos”. Assim começa a trajetória de Tillie Walden, em sua HQ autobiográfica Spinning, lançada pela editora Veneta. Nesse trabalho, a autora, de apenas 23 anos, tenta olhar para seu passado e a relação complexa que ela sempre teve com a patinação. Essa, na qual foi capaz de trazer diversas perspectivas positivas, como amizades, paixões e uma sensação de relaxamento. Entretanto, também foi a mesma que conseguiu gerar uma grande problemática psicológica em torno da mesma, por um certo abandono de diversos lados. Afinal, o que foi realmente esse esporte para a vida de Walden? O amadurecimento e sobre como possui uma relação intrínseca a ele são a busca de discussão aqui.

Por dez anos, a rotina dessa personagem real foi sempre a mesma: acordar cedo para ir patinar. Nesse ambiente, ela vê diversas possibilidades. Constrói, assim, diversas amizades, apesar de também gerar alguns desafetos, simplesmente pelo seu estilo mais calado. Entretanto, esse ambiente é extremamente relevante a vida pelo simples motivo de todas as questões de seu cotidiano durante todos os anos foram relacionados aos ginásios. A divisão em 10 capítulos de cada um dos movimentos de patinação, denotam bem uma busca pela perfeição atuando. Essa mesma perfeição é tentada na existência. Como ela mesmo diz em um de seus movimentos, “O Lutz sempre me deixou tensa”. A vida também.

Tillie não tem medo algum de expor aqui. Desde o princípio, ela coloca como clara a difícil relação com os pais, além de um bullying frequente que sofria quando começou na patinação. Ela parecia nunca acreditar possuir realmente um talento para aquilo, renegando os períodos de maior pertencimento quando estava em grupo com outras meninas patinando. Ao colocar isso, é possível perceber como todo aquele ambiente parece ser quase uma libertação e tranquilidade. A liberdade é explorada pelos seus saltos, além dos planos mais abertos trabalhados pela ilustração, quase sempre como um respiro a tudo.

Apesar dessas questões relacionadas ao esporte, a autora utiliza isso apenas como um ponto de partida para explorar sobre seu amadurecimento e desenvolvimento na adolescência. Desde passar a não entender sentimentos que possuía, até assumir para si mesma como homossexual. O primeiro beijo dela com uma mulher traz toda essa ternura cênica, buscando um olhar sigelo e amendrontado das sensações a sua volta. Ela diz saber “desde pequena” que era gay, fato na qual sempre a causou uma certa complicação interna. Por isso, assumir essa questão é extremamente opressivo e é possível sentir todo esse sufocamento.

A artista busca um uso estético profundo para pitadas de sensações. As cores predominantes são o azul, branco e o amarelo. Os dois primeiros geram a falta de quaisquer tipo de envolvimento emocional da personagem com o mundo a sua volta. Quando essa apatia é mais presente, não é raro ver um fundo quase completo azul, trazendo uma quase itimidação para com ela. Ao mesmo tempo, quando Tillie começa a se perceber nas habilidades de desenho, o branco é espalhado sendo um alívio até para a própria leitura. Seus períodos mais difíceis estão sempre relacionados a cores, como se estivesse em uma realidade paralela, traçando uma constante dificuldade em existir.

As repetições, os fracassos e as felicidades fazem parte de toda realização esportiva. A patinação não é nada diferente, assim como não foi para Tillie Walden. Contudo, ao olhar para o passado, a autora não vê, necessariamente, dias, horários, mas sim situações, na qual o simples ato de patinar, esteve envolvido em conflitos emocionais maiores que qualquer coisa. Spinning, assim como o próprio nome causa a sensação, é uma espécie profunda de movimento. Movimento esse da própria vida, possuíndo caminhos, lados, dificuldades e até alguns pequenos instantes de glória. Ao fim, a digestão parece ser uma quase nostalgia esquisita, aquela dos sentimentos mistos. Afinal, assim como a patinação, a vivência necessita dos treinos para a perfeição – ou, ao menos, a sua busca.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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