Revisitando O Último Mestre do Ar: Uma fantasia incompreendida

Até mesmo antes de sua estreia na primavera de 2010, O Último Mestre do Ar, nunca foi visto por público ou crítica com bons olhos. A adaptação da animação Avatar: A Lenda Aang recebeu muitos comentários negativos principalmente pela distância que apresentava do material, ao mesmo tempo que traziam uma crítica ao longa não ser tão centralizado na ação. Todavia, M. Night Shyamalan realmente propõe uma outra abordagem para essa história. Seu objetivo é muito mais falar sobre a mística e a magia desse universo do que trabalhar uma fantasia mais simplista.

Na história, temos um continente de nações em guerra. A causadora de todo esse conflito é a Nação do Fogo, pretendendo controlar todo esse mundo, das Nações do Ar, da Água e da Terra. Dentro dessa trama, os irmãos Sokka (Jackson Rathbone) e Katara (Nicola Peltz) encontram no meio de um “deserto” de gelo o poderoso Aang (Noah Ringer), congelado por muito tempo. O pequeno garoto, capaz de dominar todos os elementos, pode ser a chave para finalizar todo o embate.

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Em busca de salientar toda essa construção mitológica, Shyamalan trabalha aqui um pano de fundo dramático focado em uma encenação mais fantasiosa. Se em outros de seus trabalhos o realismo se abre para o fantástico ganhar força, aqui vemos exatamente o contrário. Isso é estabelecido desde a cena inicial, quando o diretor já apresenta os personagens como portadores de poderes, além da aparição de seres inimagináveis. Aos poucos, dentro dessas características, há uma busca por uma mitologia própria da obra, entendendo os protagonistas e antagonistas apenas como seres catalizadores dessas questões.

Essa preocupação mística do cineasta é tão intensa a ponto de ele salientar momentos menores e maiores como uma mesma dinâmica. Na cena em que descobrimos o controle de Aang sobre todos os elementos, seu domínio sobre esses é mais relevante para a trama do que a construção de uma personalidade grandiosa. Ao mesmo tempo, vemos também esse tratamento na primeira grande sequência de ação, um plano-sequência demonstrando a funcionalidade dos mais diversos poderes. O foco dessa proposição temática não é na ação direta (com vilões sendo tacados de um lado para outro), mas nesse controle da terra, dos elementos.

Ao trazer esse universo para primeiro plano, ocorre uma certa escolha por um menor desenvolvimento de seus personagens no roteiro. Todos parecem bem mais superficiais e até caricatos, como é o caso do rei da Nação do Fogo, o grande vilão. Todavia, dentro desse conceito, se explora um determinado amadurecimento dos personagens jovens perante esse mundo de enfrentamentos que está destinado a eles. Enquanto o personagem de Dev Patel busca entender sobre o bem e o mal, os irmãos acompanhando o protagonista tentam se perceber como importantes para cosmo a volta deles. O irmão a partir do seu relacionamento amoroso e a irmã compreendendo essa figura quase messiânica do Avatar.

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Os elementos de fantasia ainda se complementam no momento do longa assumir ainda mais diretamente um entendimento sobre a fé e o pertencimento de mundo. A utilização de poderes pode servir como arma – até de “fogo”, como se brinca em um segundo específico -, porém também de maneira contemplativa, principalmente aos portadores de ar. Com a construção de um passado bem claro através de backgrounds para Aang, é assumido um sentido de como esses domínios podem servir de maneira a gerar uma catalisação de uma crença, fé. O momento de todos se ajoelhando para a força do jovem herói no fim ainda reforça mais isso, uma ideia religiosa.

É intrigante como há uma preocupação mínima com a ação em si. Ela é sempre trazida de maneira a mostrar uma efemeridade dos personagens perante a natureza, porém também servindo como uma união. Em alguns instantes, o diretor parte para uma estilização das batalhas, com o uso de câmera lenta, plano sequência (dito anteriormente), elementos do cenário e planos mais longos. Porém, sempre se termina em uma plasticidade mais focada em, novamente, entender os elementos desse universo, do que em algo mais direto, uma briga por si só.

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É quase compreensível como houve uma rejeição tão forte a O Último Mestre do Ar, assim como há com boa parte do cinema de M. Night Shyamalan. Sua preocupação com o místico meio sobrenatural e, ao mesmo tempo, realista de nosso mundo traz discussões inesperadas, como é o caso desse filme. Se no futuro haverá reconhecimento para a obra, só o tempo irá dizer. Porém, é impossível não perceber as preocupações místicas e interessante de uma fantasia pouco direta que o diretor traz aqui. Talvez só o cinema oriental realmente explique.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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