Warpaint faz show especialmente nostálgico para o público carioca

O retorno das californianas do Warpaint as terras cariocas não foi exatamente caloroso, por assim dizer. Após um dilúvio de mais de 4 horas de duração, o show de abertura foi adiado para a entrada da banda internacional, que tinha hora marcada para uma viagem. Carne Doce, banda goiana que tem sido destaque da cena do rock independente nacional, teve a oportunidade única de ter sido introduzido pela atração estrangeira.

Já no começo corrido, a banda abriu com sua autointitulada música, “Warpaint”. Devido a problemas de som, as meninas foram obrigadas a fazer a famosa enrolação musical. De praxe, não decepcionaram na hora de segurar as cordas. A música foi estendida pra uma simpática e desesperadora versão instrumental, que embalando com a volta do som no final, fez com que levantasse o ânimo do público, que por todas as razões do mundo, estava bem fora de ritmo… E clima.

Theresa Wayman agita plateia com a balada “Love is to Die” (Foto: Julia Cajé)

“Elephants”, um dos clássicos mais etéreos da carreira da banda, foi engatado logo em seguida. O clima demasiadamente em tons, apesar de todas as dificuldades, foi um up necessário para um público que não tinha contato com a mesma a exatos 8 anos atrás. Ainda no começo do reconhecimento mundial, a pequena banda veio a primeira vez ao país em 2010, apresentando seu primeiro e até então único álbum, The Fool. Após alguns anos, a banda voltaria a retornar aos nossos solos, mas apenas em específicos shows na capital paulista.

Apesar do delay, o público carioca não fez por menos: As escolhas certas e o tom de hospitalidade e sincronia da banda foi definitivo para uma resposta animada por parte do público.

Investindo pesadamente em suas dívidas, o Warpaint continuou sua sequência no repertório mais antigo.

“Bees” continua a sequência de seus íntimos clássicos, que permanece bem agitado. “The Stall”, “Love is to Die” e “Whiteout” marcaram em sequência, abrindo espaço para trabalhos até então inéditos aqui pelo Rio.

A balada “Love is to Die”, um dos maiores destaques da carreira atual das meninas, foi a receita perfeita para eletrizar o ainda morno público. Com direito a um quase stage diving, o público interagiu com a banda cantando o outro em harmonia com ajuda do microfone.

Em seguida, “Beetles”, que é uma das primeiras composições da banda contido em seu primeiro EP, Exquisite Corpse. Theresa Wayman, guitarrista e vocalista, canta e dança quase em uni sono com a plateia. Sua interação foi parte fundamental da noite.

Mas a simpatia também não é exclusiva só de sua guitarrista. “Drive” e “Krimson”, um monólogo etéreo com batidas válidas a uma balada moderna e um mix mais do que ousado de seus primeiros trabalhos compilados em uma música divertidíssima e agitada abriu portas para diversas conversas entre o público.

Apesar do clima parecer pesado pela correria do show prejudicado, isso não transparecia de forma alguma entre as meninas. No balaio entre uma música e outra, as duas principais vocalistas conversam bastante com o público, deixando claro a sua volta muito em breve.

“So Good”, outra balada de compasso marcante segue. Mas apenas a sucessão com uma “surpresa concedida via altos pedidos pelo Instagram” mostra que as meninas não são só simpáticas como também atenciosas com os atrasos do passado. E assim “Undertow”, com o anúncio da guitarrista e também vocalista Emily Kokal, entra. A faixa, destaque do primeiro álbum, é algo raro de se ver ao vivo a um bom tempo.

Emily Kokal (Foto: Julia Cajé)

Com o espaço tomado e o conforto do público dado, “New Song”, single de sucesso do último álbum e “Disco//Very”, divertida e famosa música culpada pela transgressão da banda foram as escolhas para fechar de vez a noite que nem tinha sequer começado.

Apesar dos atrasos, as meninas do Warpaint deixam claro que a força da música independente é um reflexo mais do que positivo para o Brasil. No final, o respeito e a cumplicidade da banda, mesmo que por uma questão de acaso, faz com que a sua introdução a algo nacionalmente não reconhecido não seja deveras ruim.

Apesar do estranho e conveniente privilégio da banda nacional Carne Doce ter sido introduzido pela atração principal, as condições climáticas não ajudaram de nada na hora da escolha do público. Entre ficar em um ambiente estável e mais uma vez afetado pela forte chuva, a grande parte da plateia decidiu tomar seu rumo em contra mão pra casa.

Salma Jô com o Carne Doce (Foto: Julia Cajé)

Com uma carga de três álbuns na bagagem, os goianos do Carne Doce não fizeram por menos. Sem um iminente recuo, fizeram um show a altura de suas apresentações. Em destaque, a vocalista e intérprete Salma Jô dá um toque a mais em sua presença de palco pertinente.

O setlist foi marcado principalmente por faixas do lançamento mais recente da banda, o álbum Tônus. Com tons pedantemente eróticos, “Comida Amarga” e “Irmãs” ilustram o já apresentado clima por parte da banda, totalmente refletido em sua vocalista.

”Artemísia”, música reflexiva sobre a escolha do aborto, “Falo” e “Açaí” acompanham a parte final do show em referência ao segundo e mais aclamado álbum da banda, que apesar de fechar a noite, não tinha suas estruturas maiores para estender seu repertório. A noite se encerrou com “Passivo”, composição de seu primeiro álbum, um literal tapa na cara de uma força sexual inativa, construída apenas pelo status. A música também briga com a fragilidade de certos discursos e a posição da violência como ato prazeroso.

E assim terminou o clima instavelmente agitado no HUB RJ. Com uma experiência positiva. Dura, mas positiva. É um fato de que a visibilidade desse tipo de evento ainda forma um nicho, mas o público local nos ensinou com vigor que apesar das dificuldades, a recepção nunca decepciona. Em uma posição de dificuldades externas, o apoio do público é fundamental para a harmonia de qualquer apresentação e sucesso posterior. Com isso dito, a plateia brasileira merece sim muito mais oportunidades.

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Clarissa Ferreira

Clarissa. Ou Setty. Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e satirista em tempo integral. Nerd pra umas coisas e punk pra outras.

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