Os ensinamentos de Stan Lee

Esse é um relato extremamente pessoal.

Nunca fui um fã aficionado das criações de Stan Lee, mesmo sendo um profundo amante dos quadrinhos desde a infância e os tempos de leitura da Turma da Mônica. Lee, apesar de ser sempre aclamado por pessoas ao meu redor, parecia alguém de grande relevância, de um tamanho que eu realmente nunca tinha entendido bem. Bom, tudo isso mudou quando li Parábola, sua HQ em colaboração com o excepcional desenhista francês Moebius.

Muito mais do que simplesmente uma história, a narrativa me mostrava um ideal de pensamento jamais observado na minha ótica. Os seres humanos realmente buscam sempre uma figura de liderança? Até que ponto a morte é algo perecível para nós? Por que os dogmas religiosos sempre se sobrepõem aos acontecimentos terrenos? A solidão pode nos deixar realmente desiludidos? Tudo isso veio a minha mente quando li, totalmente deslumbrado por diálogos extrapolando um lirismo poético – como o mesmo Stan diz na introdução – e passando a quase uma poesia de sofrimento, de entender a essência do próprio ser humano.

Acima disso tudo, o que realmente me chamou atenção, cativando além a minha apreciação pela obra, foram alguns diálogos perenes do Surfista Prateado, protagonista do quadrinho, podemos assim dizer. “Não nos é dado saber se teremos sucesso ou não”, “Se desistirmos da luta porque as chances de vitória são pequenas, onde fica nosso valor?”, “como protegê-los da sua própria insanidade?”, “Qual relação a divindade teria com exibições de força ou o abandono da razão?”. Esses pequenos pensamentos e indagações ultrapassam a ideia da concepção da nona arte por ela mesmo, entrando em um aspecto de construção de uma personalidade, de um pensamento. Aquilo me fez refletir, me fez pensar se não deveríamos sempre criticar uma dita verdade, ou o ditado como “certo”. Aquilo realmente me impactou.

Passados alguns anos, mais especificamente no dia de ontem (12/11/2018), me deparo com a morte de Stan Lee, aos 95 anos de idade. Para além das situações envolvidas em seu últimos momentos em vida, uma comoção mundial se tornou em cima dessa figura, que ganhou status de uma maior celebridade pelo enorme sucesso do universo cinematográfico da Marvel. Mais uma vez pensei ainda não entender muito bem a importância daquele homem para a concepção dos quadrinhos na atualidade e para a formação de produções em outras mídias, sempre celebrando sua carreira.

Nesse instante, lembrei de Parábola. Lembrei de todos aqueles pensamentos. Lembrei das indagações plantadas no roteiro. E me veio o presente.

Lembro-me da eleição de políticos (ditos como mitos e/ou salvadores da pátria) inflamados por um discurso de ódio. Lembro-me da nossa sempre presente presunção humana que foge do diálogo, da busca pela melhora. Lembro-me da imagem de pessoas cegas pelo poder, utilizando um discurso ideológico religioso para atacar outros. Lembo-me da ideia da morte se tornar cada vez mais vulgarizada, algo que o mesmo homem falecido criticava ainda nos anos 80. Lembro-me da solidão do Surfista, em não entender os passos e caminhos seguidos por essa dita ‘humanidade’.

Stan Lee se foi e ficaram marcados seus traços deixados nesse gigantesco mundo, sempre cobertos por tremendo desastres e um ódio crescente. Além de suas produções artísticas, que fiquem marcados os ensinamentos propagados por um dos homens mais importantes da cultura pop. Essa paz e inclusão, sempre propostas nas suas histórias, devem sempre permanecer em nós, o futuro.

Excelsior!

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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