A poética do ordinário nos filmes de Lynne Ramsay

O que é ser poético? O conceito de poesia no audiovisual é uma brecha que nos leva a vários lugares, dependendo do que consideramos sinônimo disso. E o ordinário? Ele faz parte de uma via poética? Os dois são plenos complementares? É possível ser poeticamente visual? E como isso se apresenta?

Quando pensamos em uma representação ordinária, vamos até o realismo. Mais especificamente no começo de tudo isso, lá na Itália: a vida é necessariamente ordinária, em suas variadas formas. Retratar o cotidiano no cinema é uma quebra de paradigma até hoje, independente da importância de determinados movimentos cinematográficos que abriram as portas a esse tipo de representação deveras popular. O simples é chato, repetitivo e, portanto, monótono. Literalmente todos os sinônimos na qual a palavra ”ordinário” pode se encaixar como catarse.

Lynne Ramsay é, por experiência, o resultado de tudo isso. Nascida em Glasgow na Escócia e filha de pais simples, a cineasta frequentemente resgata sua percepção com seu mundo em particular para além da lente em seus filmes. Com o uso de atores amadores na maioria de seu elenco, a diretora demonstra que a simpatia para com os dramas familiares típicos de qualquer família proletária vai muito além das palavras… As vezes, só precisa de pequenos gestos e emoções; O detalhe do que nos é raramente dado a palavra, mostrando que a beleza de ser uma simples criança ou adulto sórdido numa sociedade desprimorosa não demanda de um conteúdo ”intelectual” para ser devidamente ouvido, sentido e admirado.


  • O Lixo e o Sonho (Ratcatcher), de 1999

Em 1996, Ramsay se tornou destaque em Cannes com a produção de seu primeiro curta-metragem, Small Deaths. Com ele, ganhou o prêmio mais importante da categoria, Melhor Curta. No mesmo ano, também foi indicado a Palma de Ouro. Mas apenas em meados de 1999 a diretora faz sua grande estreia nos longas, com o filme O Lixo e o Sonho. Como seus dois curtas anteriores, o elenco é majoritariamente formado por atores amadores, além de ter uma história original.

Ambientado durante uma grande greve dos lixeiros de Glasgow em 1973, acompanhamos a jornada de James (William Eadie), um menino que sofre com as consequências de testemunhar a morte de seu colega. Passando pelas decrépitas ruas, vemos como uma comunidade unida pela necessidade de lidar com as gangues e a falta de uma situação digna ao mesmo tempo contrasta com o mundo mais íntimo de James. Entre um pequeno enredo de amor platônico até a solitude de ser apenas um menino inocente, vemos sinceridade quase marginal de como as demandas sociais são impostas desde cedo, e como a necessidade humana do luto é muito mais complexa do que apenas um ritual de passagem.

Na cabeça de uma criança, Ramsay parece ter a empatia correta. Entre planos de realismo mágico advindos de fábulas até o prazer de simplesmente ser e sentir o ambiente, o filme marca uma importante lembrança de que o mais corriqueiro dos momentos detém detalhes importantes demais para serem esquecidos e idealizados, mas que acabam sendo plenamente ignorados. A infância, é uma delas.


  • O Romance de Morvern Callar (Morvern Callar), de 2002

Quem é Morvern Callar? Essa questão já sobe a cabeça do espectador no momento em que bate de frente ao filme. O segundo longa de Ramsay é baseado no livro de Alan Warner de mesmo nome, publicado em 1995. A parceria com Samantha Morton marca aqui um importante compromisso com a fidelidade filosófica da diretora. O que era antes uma consequência de passagem ao luto, agora é uma escolha do que fazer para habituar-se.

Em uma jornada em busca de se adaptar ao luto de seu namorado intelectual que recentemente tirou a própria vida, Morvern (Samantha Morton) tenta transpassar toda a desigualdade que a vida lhe fornece buscando modos de viver entre a linha tênue da sociedade, a impossível busca por algo que seja bonito. Com a presença de sua melhor amiga Lanna (Kathleen McDermott), ela se vê na necessidade quase que voluntária de se deixar levar pelas consequências do que lhe resta. Com uma fita musical em mãos e algumas promessas não pagas, lidamos não só com a expressão por vezes corporal da personagem, mas também a beleza de ser algo muito longe do requisitado, mas plenamente inspirador.

Nas palavras de Tom Williams para o White Little Lies:

“Esse desejo de algo mais sóbrio, uma experiência mais autêntica replicada a sua busca por, em suas próprias palavras, “algo bonito”. Morvern quer se perder em um lugar estrangeiro, que a tire de sua zona de conforto, bem longe da vida na qual ela quer sair. Apesar da plena resolução de um luto ser impossível, Ramsay nos mostra que uma aparente jovem angustiada e que trabalha em um simples supermercado é capaz de liderar uma rica e bela noção da vida – independente da posição em que você se encontre.”

E nada é mais ordinariamente poético do que isso. Mas por quê? Como Roger Ebert uma vez disse: Nós talvez nunca saberemos. Pode ser pelo fato de Ramsay ter a essa experiência de viver a classe baixa de perto e se sentir deslocada no mundo dos intelectos. Ou pelo fato de Samantha Morton ter passado por vários lares adotivos durante sua vida. Com tudo, nada é mais extraordinário no cinema do que a sinceridade transpassada em empatia.


  • Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin), de 2011

Após nove anos de promessas e inúmeros murmurinhos negativos, Ramsay volta as telas pra alcançar uma notória atenção mundial, mas dessa vez com a adaptação própria de outro livro, da jornalista americana Lionel Shriver. Diferente de seus outros trabalhos mais simplórios e intimistas, Ramsay, com uma produção deveras grande, escolheu um elenco em ascensão, com a representação matriarca feita por Tilda Swinton, ao lado de seu filho problemático Kevin, interpretado por Erza Miller. O elenco também tem a presença do ator John C. Reilly como pai não presente.

Situado em uma típica família de classe média americana, o clima da abordagem nos deixa logo de cara familiarizados com os sentimentos da mãe, que cronologicamente é mostrado desde a concepção de sua carreira de sucesso como escritora até o nascimento de seu primogênito. Com um filho não desejado, Eva (Tilda Swinton) vai constantemente remoendo seus sentimentos e frustrações de não ser levada a sério em seus sonhos futuros, e isso, como consequência, vai afetando suas relações com o seu marido (John C. Reilly) e seu filho, causando uma série de catástrofes minuciosamente representado em pequenos acontecimentos do cotidiano. Com a falta de empatia da mãe, Kevin (Erza Miller) vai desde sua infância absorvendo o que lhe falta dentro da convivência em família, que por vezes é social e forçadamente construído, desenvolvendo uma posição moral e psicológica no menino desastrosa como consequência de um convívio não saudável no que seria, supostamente, acolhedor.

Retratando majestosamente e em pequenos detalhes sórdidos, Ramsay captura o que tem de mais familiar e ao mesmo tempo violento de uma relação apática entre mãe e filho. Sem rédeas ao retratar o fardo de se passar pelo maior senso de ”ser mãe”, o olhar distante e por vezes intimista da direção nos aponta a fundo ao que temos de mais biológico e sincero entre o compromisso e o desafeto. Qual a responsabilidade de um parente com um filho? Ser mãe é realmente o maior e mais importante papel da sociedade? O que você se torna é estritamente consequência das frustrações de seus pais? Adaptar-se a sociedade vai muito além das convenções típicas, e um ambiente familiar pode ser o desencadear de algo muito mais recorrente do que a gratidão e/ou o amor. Precisamos Falar Sobre o Kevin é quase um ensaio analítico de como o comportamento sociais atrelados a demandas externas são o resultado de tudo menos algo que podemos acolher como o bastião do certo ou errado.


  • Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here), de 2017

Salvas todas as observações sobre o luto, problemas sociais e familiares e o que isso nos resulta na busca por algo ”bonito”, fazemos também uma correlação de como isso, de derivadas maneiras, nos apresenta de forma violenta. O quarto longa da diretora é outra adaptação própria de um livro, mas de um livro especificamente… Violento. Você Nunca Esteve Realmente Aqui é um livro de ação/mistério escrito por Jonathan Ames, conhecido pela autorias de inúmeras séries de memórias cômicas. O filme, que estreou em cenário nacional no começo desse mês de agosto, foi o ganhador do prêmio de Melhor Roteiro (um empate com O Sacrifício do Cervo Sagrado, de Yorgos Lanthimos) e Melhor Ator para Joaquin Phoenix, marcando não só o retorno de Ramsay as telas, mas ao prestígio crítico mundial.

Acompanhamos Joe (Joaquin Phoenix), um veterano de guerra em sua conturbada vida como ”vingador de aluguel”, um cotidiano de busca e resgate de meninas em ambientes violentos. Após um turbulento trabalho ter se descontrolado de seus planos, Joe começa a conviver com constantes devaneios de suas relações traumáticas e paranoicas com seu pai, o abalo emocional de lidar com sua frágil mãe, o peso de cumprir um papel na sociedade como um bastião do bom costume (consequência de ações constantes das próprias pessoas que o financiam) e de tudo o que o resulta nessa soma que no final, nos leva a sua essência romanticamente violenta.

A retratação do masculino, o papel da violência em fronte a situações por vezes morais, a perda da inocência, a humanização desse tipo de herói as avessas que muitas vezes acaba sendo o contrário do que se é estereotipado (principalmente em filmes do gênero) e a relação da sociedade como resultado desse ciclo violento é a majestosidade de tudo que Ramsay já nos tinha sensibilizado em seus trabalhos anteriores. Você Nunca Esteve Realmente Aqui é uma representação apoteoticamente solitária (e por vezes propositalmente não empático) sobre a masculinidade tóxica dentro de seu ambiente mais primitivo, nos remetendo (e até simpatizando) as consequências do que (talvez) seria o passado de alguém visivelmente conturbado com o que é a plena felicidade, o pleno luto, a plena virtude e o pleno afeto.

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Clarissa Ferreira

Clarissa. Ou Setty. Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e satirista em tempo integral. Nerd pra umas coisas e punk pra outras.

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