Apesar de Você: 50 anos de uma canção revivida

“Apesar de Você” completa 50 anos em 2020 e se depender de seu compositor não teremos comemoração alguma. Chico Buarque guarda certa distância de suas canções que entraram para a história como “canções de protesto” e “Apesar de Você” talvez seja a maior expressão delas. Porém, mesmo a suposta revelia de Chico, a música renasce e se realiza mais uma vez como um hino de resistência a governos autoritários como o de Michel Temer e de Jair Bolsonaro.

A canção que fora lançada em compacto simples no ano de 1970. Ela, porém, foi decodificada e proibida, saindo em álbum só em 1978 (no famoso álbum da samambaia). A força da canção é, segundo um estudo pioneiro da poética de Chico Buarque (Desenho Mágico – Adélia Bezerra de Meneses), a projeção de um amanhã que indicaria a supressão do quadro repressivo descrito na canção onde tudo terminaria bem, apesar de um você que proíbe a tudo e a todos. A música, portanto, teria duas realizações: a primeira é a de desencadear a consciência sobre a repressão do período; a segunda, de descarregar a raiva de tudo que estava contido pelo ambiente da ditadura. Isso tudo sendo cantado em um quadro de perseguição nos anos de chumbo. A censura, porém, de primeira, não percebeu nada – só depois de vender milhares de cópias e tocar nas rádios pelo país eles se deram conta de quem era o você da canção. Tarde demais.

Mas se a canção, como acha seu compositor, fosse datada e só se referisse ao período mais duro da ditadura, por que ela insiste em voltar a tocar em manifestações e atos políticos pelo menos desde 2016? É importante dizer que Chico agiu dubiamente nessa reabilitação de “Apesar de Você”. Ele lançou Caravanas, em 2017, e saiu em turnê com as músicas inéditas e um setlist pouco diferente das turnês anteriores (com a preciosa exceção de “Sabiá”). Ou seja, se um fã mais irritado com o governo Temer tivesse ido ao show esperando cantar “Apesar de Você” a plenos pulmões contra o presidente, sairia de lá frustrado.

Porém, o mesmo Chico Buarque, que deixou de lado sua pérola na turnê, a cantou junto dos manifestantes na ocupação do Canecão em 2016. Ocupação, esta, que foi resultado da expulsão dos ocupantes do Ministério da Cultura que estavam protestando, justamente, contra o governo Michel Temer. Em outro momento, logo após o ato da campanha de Fernando Haddad em 2018, o cantor, junto de Caetano Veloso, Manuela D’Ávila, o próprio Haddad e outros artistas foram gravados cantando a canção de que tratamos. Salvo engano, Buarque guarda sua música datada para momentos onde o recado precisa ser direto e certeiro a quem se faz oposição. O argumento é ousado, pois, o mesmo Chico Buarque diz que “o você da canção não é necessariamente uma pessoa, nem um general, mas generalidades”.

Se o Chico dispõe de alguma ambivalência com o samba (chegou a afirmar que “Apesar de Você” era “uma música que não tinha grande valor em si mesma, mas que para mim tem, pois foi justamente a resposta a tudo que vi”), não se pode dizer o mesmo dos opositores do presidente Jair Bolsonaro. A faixa volta a ecoar nas janelas em meio a panelas e gritos de “Fora, Bolsonaro” enquanto a crise do novo coronavírus se desenrola. Inclusive, os panelaços dos recolhidos em casa durante a quarentena se apropriaram da música e a colocam, mais uma vez, como hino da resistência. Não sei como o Chico Buarque lidou com mais essa, mas, parafraseando Roberto Schwarz em artigo clássico, o compositor verá que o tempo passou e não passou. Não temos culpa. Seja quem for, vai passar!

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