Coluna da Cibele | De musas a autoras: qual o lugar da mulher na literatura?

Quantos livros escritos por mulheres você leu neste ano? A pergunta pode parecer simples, mas a reposta esbarra em uma discussão muito mais ampla: o lugar da mulher no universo da literatura. Se como leitoras ganhamos destaque – dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2016 mostram que 59% da população leitora é feminina -, a situação se transforma quando mudamos de lado. Para cada Clarice Lispector que surge no cenário literário brasileiro, quantas outras aspirantes a escritoras ficam pra trás?

Ainda no século XX, a inglesa Virginia Woolf já discutia essa questão. Em sua obra Um Teto Todo Seu, compilado de palestras proferidas por ela em 1928, a autora traça um contraste histórico que se repete até hoje. Como musas inspiradoras, as mulheres são maioria, porém, quando invertemos o papel, percebemos o quão condicionada é a liberdade da mulher para a criação literária.

“Assim, surge um ser muito complexo e esquisito. É de se imaginar que ela seja da maior importância; na prática, ela é completamente insignificante. Ela permeia a poesia de capa a capa; está sempre presente na história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era a escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas das palavras mais inspiradas, algum dos pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco consegui a ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido” (Virginia Woolf, 2014, p. 66).

Essa invisibilidade vai muito além da literatura. A história das mulheres como um todo perpassa por um véu de silêncio – imposto pela sociedade patriarcal e, tantas vezes, reafirmado pelas próprias mulheres. A pesquisadora Michelle Perrot, em seu livro Minha História das Mulheres, relembra que era comum essas queimarem seus diários, únicos registros escritos de suas experiências, como uma forma de desprezaram a importância de suas histórias.

Mesmo aquelas que desejam se tornar escritoras acabavam sendo obrigadas a publicar os seus romances com pseudônimos ou anonimamente, já que a atividade intelectual feminina era entendida como um transgressão social. Nesse quadro se incluem grandes nomes como as irmãs britânicas Charlotte, Emily e Anne Brontë, na qual publicaram seus livros como Currer, Ellis e Acton Bell. Algo parecido aconteceu com Jane Austen que, na verdade, não publicou nenhum romance assinado em vida, pelo fato de todos eram creditados por uma pessoa anônima. A prática continuou com força até o início do século XX, contudo, não desapareceu completamente. Nos anos 90, por exemplo, a britânica J. K. Rowling escondeu seu primeiro nome (Joanne) por sugestão da editora, com o objetivo das vendas de seus livros tivessem melhor desempenho.

Se aplicarmos esse fenômeno em terras brasileiras, a trajetória da Academia Brasileira de Letras ilustra bem a situação. Em mais de cem anos desde a sua criação, apenas 8 mulheres foram escolhidas para ocupar as cadeiras de uma das mais importantes instituições literárias do país.

Resistência, uma palavra feminina

Nadar contra a maré parece ser uma especialidade feminina, já que há décadas todas as questões no qual envolvem o lugar das mulheres nas artes e na literatura vêm sendo discutidas por grupos feministas e pesquisadoras. É o caso do Guerrilla Girls, um grupo ativista que desde os anos 80 debate essa e outras temáticas, por meio de intervenções artísticas e cartazes irônicos. Da mesma forma, a proliferação da campanha “Leia Mulheres” – juntamente com a criação de clubes de leitura voltados para essa temática – demonstram que há muitas ações ao redor do mundo criadas em prol da manutenção desse debate.

Para muito além de pessoas que leiam mulheres, precisamos também de mulheres que coloquem no papel suas experiências e vivenciam; mulheres dispostas a compartilhar – nas mais diversas formas de literatura – suas ideias e assim lutar pelo seu espaço em um mercado editorial ainda tão dominado por homens.

“Mas acredito que essa poeta que nunca escreveu uma linha e foi enterrada no cruzamento está viva. Ela está viva em você e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui está noite, porque estão lavando a louça ou colocando os filhos na cama. Mas ela está viva, pois os grandes poetas nunca morrem; são presenças duradouras, precisam apenas de uma oportunidade para andar entre nós em carne e osso. Essa oportunidade, acredito, está agora ao alcance de vocês” (Virginia Woolf, 2014, p. 158).

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