Big Little Lies 2: Maternidade, culpa e confusão narrativa

Quando estreou no início de 2017, Big Little Lies chamava atenção não só pelo grande canal em que debutava, mas principalmente pelo elenco estelar, que contava com nomes do escalão de Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Laura Dern e Shailene Woodley. Não demorou muito para que a série, com os visuais do diretor Jean-Marc Vallé, somado aos talentos do elenco e um texto sólido que equilibrava o novelão com importantes temas sociais, roubasse totalmente a atenção do público e da crítica. Assim, apesar das muitas vitórias na temporada de premiações, a conclusão era aberta, mas satisfatória.

Não tanto para a HBO. Mesmo sendo anunciada como uma minissérie, BLL acabou sendo renovada para uma segunda temporada ainda em 2017. Com direção de Andrea Arnold, responsável por filmes como American Honey e ganhadora do Oscar pelo curta “Wasp”, o segundo ano chegou cercado de expectativa em junho de 2019. Não só pelo retorno em si, mas agora com um peso maior ainda: Meryl Streep estaria se juntando ao elenco como a mãe de Perry, o falecido, em busca de respostas sobre a morte do filho. Apesar de ter um bom final, é inegável que perguntas ficaram no ar: essas cinco mulheres ficariam mesmo impunes por esse crime?

Os dois primeiros episódios são responsáveis por estabelecer a situação de nossas protagonistas. Celeste precisa cuidar de seus filhos sozinha e ainda lidar com a culpa que carrega pela mentira, ainda mais com a sogra Mary Louise andando pelos cantos fazendo perguntas e comentários gentilmente maldosos. No novo emprego no aquário da cidade (Por que isso aconteceu?), Jane começa a se envolver com um colega de trabalho, ainda carregando os traumas que sua agressão sexual deixaram em sua maneira de se relacionar. Bonnie se sente sobrecarregada pela culpa, literalmente andando sem direção pelas estradas da cidade e o mundo da poderosa Renata é jogado ladeira abaixo quando ela descobre que seu marido levou a família à falência.

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Parece material de sobra para desenvolver durante sete episódios, correto? E de fato, é. Mas isso nunca acontece. Enquanto a primeira temporada apresentava uma direção criativa certeira e equilibrada, com um ritmo rápido sem ser corrido, apresentando e desenvolvendo com calma as protagonistas (e até as coadjuvantes) e seus conflitos, os elementos técnicos que faziam isso funcionar tão bem no ano de estreia aqui apenas deixam a narrativa confusa e cansativa. Os pequenos flashes e cortes rápidos que ajudavam o público a entender o que o personagem estavam sentindo aqui se tornam gratuitos e excessivos, chegando até a fragmentar os acontecimentos na tela. Posteriormente, foi divulgado que essa edição é fruto de um acordo entre os produtores da HBO e de Jean-Marc Vallé, que aparentemente editou a visão original da diretora Andrea Arnold para ficar mais coerente com sua própria, da primeira temporada. Logicamente, isso afetou e bastante o ritmo e a coesão narrativa desse segundo. Você pode ler mais sobre o assunto aqui, em inglês.

O roteiro de David E. Kelley também parece, na maior parte dos episódios, indeciso. Os momentos cômicos de Renata Klein, em uma interpretação ímpar de Laura Dern, embora sejam bem-vindos e agora já marcas da personagem, acabam diminuindo um pouco o impacto dramático de seu arco pelo excesso. A Bonnie de Zoë Kravitz é uma das personagens com maior carga narrativa, mas apenas tem um momento de ápice no penúltimo episódio. Bonnie tem um passado, justificativas e conflitos próprios com sua família e seu casamento, mas nada disso é abordado com a profundidade necessária. Prova disso é a participação extremamente enfadonha de Crystal Fox como sua mãe, que traz uma aura de quase misticismo para a história e logo depois entra em um coma e dali não sai nunca mais. Ao fim da temporada, foi um elemento desnecessário e ademais confuso.

Não é surpresa para ninguém, portanto, que o maior destaque tenha sido o constante embate entre as personagens de Kidman e Streep. A tensão entre as duas é construída com calma, com a evolução de uma relação sem confiança entre sogra e nora até um conflito propriamente dito com agressões físicas, concluindo então em uma disputa judicial sobre a guarda dos filhos de Celeste. Se no início Meryl invoca a fúria de quem está assistindo com uma personagem capciosa, com olhares e comentários nada amigáveis e uma mágoa latente na voz, Nicole, que parecia até mesmo um pouco apagada, mostra novamente o porquê de ser considerada uma das maiores atrizes atualmente. O embate entre as duas na corte é um clímax esperado e propriamente entregue, com atuações perfeitas e escolhas inteligentes de direção e roteiro, uma cena que certamente não teria o mesmo poder e impacto se não fossem essas duas atrizes.

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Portanto, o que fica claro é que, apesar de não haver nenhuma necessidade narrativa, os produtores e o elenco entregaram um segundo ano apenas razoável para um dos trabalhos mais elogiáveis da televisão em anos. É uma obra que acaba sendo inevitavelmente elevada pelo carisma e talento do elenco principal, que compensam uma pós-produção problemática e uma narrativa que consegue ser inchada e vazia ao mesmo tempo. Se haverá uma terceira temporada, só o tempo dirá. Afinal, uma segunda também não fazia parte dos planos. O Globo de Ouro e o Emmy talvez deem essa resposta ao público ano que vem.

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