Bohemian Rhapsody mostra como cinebiografias musicais podem ser

É fato que a banda Queen se tornou um dos maiores marcos da música durante o século XX, talvez até o maior de todos eles. Com seus diversos sucessos e a constante reinvenção, o grupo tomou um posto de influência cultural, performática e artística pouco vista na história da música. Sendo assim, como diversos outros grandes nomes dessa arte, faltava uma cinebiografia mostrando todo esse backstage da ascensão da rainha. Bohemian Rhapsody supre essa necessidade dos fãs e admiradores, demonstrando como um filme sobre vidas de bandas poderiam ser.

Existe, acima de tudo, um senso de realidade pungente no longa. O diretor Bryan Singer (que foi substituído próximo ao final das filmagens por Dexter Fletcher por ‘motivos criativos’) utiliza-se constantemente de quadros para apresentar faces mais humanas e comuns das grandes personalidades na qual muitos aprenderam a amar. Enquanto nos momentos mais dramáticos e até – impressionantemente – cômicos ele busca algo mais estático, com closes e utilização das luzes gerando um clima de instabilidade ou perigo no ar, representados na fotografia de Newton Thomas Sigel. Isso é revelado ainda mais claramente na sequência em que Freddie Mercury (Rami Malek) começa a adentrar o mundo das drogas, carregando a consequência da fama. Todavia, nos momentos das apresentações no palco, Singer esbanja as figuras que tem em mãos, sempre usando um contra plongée para salientar a imponência artística dos integrantes.

Há uma certa discrepância dentro do tempo de tela dado para a banda em si, dando um enfoque claríssimo na trama de Mercury, buscando até elementos sobre sua origem. Apesar dos outros membros não possuírem espaço nenhum dentro disso, ocorre uma integração muito forte que gera momentos extremamente emotivos. É claro que nada poderia dar certo sem a conexão do elenco, conseguindo criar personalidades únicas para cada um dos personagens, levando a existência de uma empatia conjunta. Como os próprios dizem em uma das linhas de diálogo, é a construção de uma família.

Com a narrativa focada no vocalista, abre-se um espaço gigantesco para o brilho do ator Ramin Malek. Reconhecido anteriormente pelo seu trabalho na série Mr. Robot, essa obra se torna um novo marco dentro da carreira. Muito mais do que apenas trazer trejeitos do artista, Malek transforma a arrogância e talento do músico em algo ainda maior, como se habitasse uma força da natureza acima das cabeças de todos a volta. Obviamente perfaz um favorecimento de tempo de tela, porém o diretor consegue salientar ainda mais esses traços de personalidade do protagonista com analogias visuais – como o anjo livre na catártica cena de abertura. Ele ainda possui caminho aberto para transformar a breguice que o astro tinha em um elemento de realeza, assim como o nome do grupo.

Falando neles e na questão das performances de palco, existe uma excelente construção de atmosfera para que os momentos musicais se tornem marcantes. Entretanto, esse destaque não é exclusivo de tais momentos, visto que existe um enfoque do mesmo modo na composição de famosas faixas. O maior realce fica, é claro, para o título do próprio longa, em um momento de extremo humor aliado a uma brincadeira lírica na própria letra da canção. “Love of my life” recebe um local privilegiado também devido a sua importância na vida de Mercury (foi uma música dedicada a sua esposa Mary Austin, com uma força alta dentro da história da película). Acima disso se sobressai a performance que encerra tudo, do show de Live Aid, na qual encerrou as atividades do grupo nessa formação. Muito maior do já conhecido e possível de ser visto até no Youtube, existe um clima belíssimo de alcance único tido ali com músicos. A conexão com o público, aonde existiu na realidade, é representada de uma forma fidedigna, marcando um momento épico para a história da música em si. E Singer reconhece isso.

Bohemian Rhapsody é um passo certeiro no caminho das cinebiografias musicais, podendo ter uma representação forte daqui para frente. Muito mais que uma obra sobre o Queen, o filme aposta em mostrar a composição e dedicação para a formação geracional gerada a partir dali. Se os Sex Pistols falaram “God Save the Queen” de uma maneira irônica para a rainha da Inglaterra, aqui é como se realmente estivessem salvando a rainha da cultura pop.

E você sabe muito bem de qual delas estamos falando.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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