Crítica – A Chance de Fahim

Existe uma espécie de personagem em determinados filmes chamado “branco salvador”. Esse, geralmente, é uma figura masculina que salva o/a protagonista negro, indígena, asiático, entre outros, de alguma situação perigosa ou até dos próprios perigos comuns, como extradição. Casos como esse são comuns na indústria hollywoodiana, trazendo sempre produções verdadeiramente próximas, sendo o caso mais recente Lion e Green Book, ambos indicados ao Oscar e o segundo tendo até vencido a estatueta de Melhor Filme. Entretando, olhando para uma história passada do mundo, não são poucos os casos na arte de situações similares, desde livros com Tarzan, por exemplo, entre diversos outros casos.

A Chance de Fahim estabelece uma perspectiva similar. No caso, a história é baseada em um fato real, sobre o garoto Fahim (Assad Ahmed), que precisa fugir de Bangladesh devido a perseguições ante seu pai e também pelo fator limitador de seguir na carreira de jogador de xadrez. Ambos, ele e sua figura paterna, vão para Paris em busca de obter asilo político. Lá, o garoto de 12 anos conhece Sylvain (Gérard Depardieu), um treinador de xadrez que pode ser a salvação de viver na França. Para continuar no país o jovem tem apenas a opção de ser campeão nacional.

Em uma perspectiva quase irônica, é um filme que, caso fosse realizado nos Estados Unidos, muito provavelmente estaria disputando o Oscar. A criação melodramática da direção de Pierre-François Martin-Laval idealiza diversas conexões lógicas com o cinema americano, especialmente nessa conexão entre Douglas Sirk e um cinema de estúdio, como no próprio caso de Lion. O maior problema é esse potencial dramático servim apenas – e simplesmente só – como uma muleta para a relação do protagonista com seu treinador. A questão do personagem branco torna-se mais relevante para salvar o garoto do que propriamente suas ações pessoais, necessárias como algo por si só.

Nesse sentido, o longa parece ter algumas dificuldades em gerar uma conexão direta da audiência. Os personagens soam mais propriamente como uma exatidão muito clara, tão montados a ponto de soarem falsos. Nem a tentativa de trazer o debate para o lado da imigração é funcional, pois apenas estabelece uma série de clichês sobre como imigrantes estão nesses lugares (quase sempre, ilegalmente). A cooperação cultural e uma espécie de adaptação particular, bem desenvolvidas em Sinônimos, aqui existe em apenas uma cena específica, quando pai e filho chegam a cidade luz. De resto são apenas tratativas da vida comum, com a língua sendo um elemento mais próximo de ‘dificultador’.

Falta um maior entendimento a produção sobre algum apelo específico dentro da obra. Existem diversos elementos que até chegam a ser bem explorados, especialmente essa relação de Fahim com os outros franceses jovens que estudam com ele xadrez. É uma tratativa de pertencimento, algo na qual deveria – e poderia – ser melhor contextualizada, trazendo uma associação muito mais pelas similaridades do que uma distância pelas diferenças. De certa forma, seria um discurso até também bastante raso, porém mais diretamente buscado e traçado.

A Chance de Fahim tenta gerar uma emoção quase barata dos seus protagonistas. Em uma narrativa com desenvolvimento dramático quase nulo, restam apenas alguns bons instantes em um emaranhado de sensos comuns. Como dito anteriormente, é claro como retoma um filme estadunidense em toda sua estrutura, focalizada em uma resolução sempre bastante simplista. Pierre-François Martin-Laval parece nunca entender bem os debates trabalhados em um pano de fundo ali, especialmente quando colocados a par do pertencer a uma cultura totalmente nova. É um longa quase inocente nesse sentido. Entretanto, mais do que apenas isso, é preguiçoso também.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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