Crítica – Jimmy Corrigan: O Menino Mais Esperto do Mundo

Logo ao início de Jimmy Corrigan: O Menino Mais Esperto do Mundo, Chris Ware gera um alerta sobre a leitura de quadrinhos. Em uma espécie de manual relativo a forma da realização da nona arte, ele já traz em si uma veia de complicação e, ao mesmo tempo, experimentação dentro da histórias. Até porque, acima de tudo, Jimmy Corrigan não é uma HQ fatalista dentro da sua trama, mas sim interessada na sua possibilidade estética para buscar uma maior potência da trama. Em um mundo de representações e de tristeza inerente, somos colocados a par de uma narrativa igualmente triste, isso salientado por essa complexificação de mundo.

No enredo, Jimmy é um homem que trabalha em uma empresa, porém sem muito destaque. Ali mesmo, ele tem uma relação totalmente impessoal com todos a sua volta. Isso é repetido com sua mãe, uma mulher na qual vive em um asilo e parece tentar tratar ele ainda como uma criança em formação. Tudo na sua vida foi passado através de caminhar conforme aparecia, sem parecer realmente ter uma carga própria. Para não dizer sempre, ele tinha uma aspiração heróica na infância, que acabou sendo deixada de lado pela falta de imaginação sentida. Porém, tudo muda na vida dele quando recebe uma mensagem de seu pai, alguém na qual ele nunca conheceu.

Ware tem noção do impacto de seu quadrinho. Começar com essa experimentação e adentrar uma narrativa de uma pessoa que pode ser um ninguém, causa conflitos. Assim como esses conflitos são retratados por páginas nunca inteiramente exatas. Estamos refletidos nesse universo por esses quadros sempre difusos, indo para caminhos nunca retilíneos, além de, em muitos casos, fugirem daquela história buscada normalmente. Através desses elementos, o autor coloca o leitor dentro um sentimento difuso, quase estranho, em que vai transformando-se numa questão dramática cada vez maior. De quase ninguém, Jimmy passa a ser mais um. Como ele teria chegado nisso? Pertencendo a uma família de mais uns.

É interessante como, a partir do verdadeiro início da HQ, estamos em uma melancolia profunda. É impossível entender o verdadeiro pensamento do protagonista, assim como suas ações perante os outros emergem seu medo. Ele possui medo até de viver. Nessas características, fundamos uma narrativa que irá basear totalmente na tristeza, fato na qual pode ser um empecilho para alguns. Não estamos tratando de uma obra fácil, totalmente palatável e que pode gerar sentimentos bem claros. As relações sobre o passado pertencem a um DNA depressivo, digno de quem é Corrigan agora.

Conforme Chris coloca essa relação dos espaços e dos antepassados de Jimmy, podemos entender melhor as diversas personalidades. Elas são presentes em um mundo que está mais interessado nessa potência dos pequenos instantes. E eles não são vitoriosos, mas sim sempre fracassados. Aliás, no único momento de uma vitória, ela é seguida de praticamente uma quebra de quem seriam aqueles personagens. Essa conexão intertemporal serve como um jeito de entender personagens sociais, muito mais complexos do que aparentam. Esses que sempre são interpelados por um sentimento de angústia profundo.

Acima dessas circunstâncias, é devidamente interessante como Chris Ware parece ter uma noção de não colocar esses questionamentos na sua linha frente. Aliás, para ele pouco importa como o debate adentrará em sua produção, sendo muito mais importante a potência externa que ela provoca. Um sentimento de vazio e imponência, algo sofrido pelo próprio Jimmy. Definitivamente, estamos lidando com uma HQ de sensações, aonde a história é o importante, todavia o ideal passa a ser todo o sentimental trazido por ela. E nisso, Jimmy Corrigan: O Menino Mais Esperto do Mundo sabe muito bem entender de qual forma a dor é formalizada.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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