Crítica – A Mãe

Muito mais do que um filme sobre o desaparecimento de um menino jovem da periferia de São Paulo, A Mãe é um filme sobre uma mãe em apuros, em estado catártico. Essa é a personagem de Maria (Marcelia Cartaxo), uma mulher que trabalha na região central da capital paulista vendendo diversos artigos em uma barraquinha. Esse cotidiano, retratado pelo olhar do diretor  como uma mistura de alegria e melancolia, é seguido sempre. Ao mesmo tempo que seu filho Valdo (Dunstin Farias) é um menino que vive entre colegas na favela e parece ter apenas também seu próprio cotidiano, indo até a escola e se divertindo.

Todo esse ambiente aberto, claro e pacífico do começo, dá espaço para um ambiente que se transforma em sombrio. Logo após voltar para casa após um dia de trabalho, Maria se depara com a falta do filho. Ela chega a perguntar para algumas pessoas próximas, porém sem nenhuma resposta conclusiva – e com alguns vizinhos chegando a pedir para ela parar de falar sobre o assunto. Ela chega a ir até a polícia registrar o desaparecimento, contudo recebe a notícia que abala as estruturas: Valdo teria sido morto por policiais militares após uma discussão. A mulher vai, então, na busca por justiça, da maneira que for possível.

É interessante a escolha estética por Cartaxo no papel da protagonista. Uma figura magra e mais velha, que traz uma aparência de fragilidade. Só que é justamente esse o contraste que a direção começa a gerar, especialmente na forma sempre centralizadora de filmá-la. Enquanto, no início, Maria aparecia apenas como mais um elemento, de lado nos planos, como uma dona de casa, ela passa a ganhar relevância e se transforma na figura dominante de toda a cenografia. Burlan deixa de acompanhar tudo a sua volta para passar seu longa na experiência de uma mulher vivendo seu estado catártico.

A todo momento A Mãe reforça o olhar de uma figura perdida, sem direção, sem foco sem caminho. Ela, que tem em sua condição matriarca alguém que traz direções, é direcionada a todo momento – seja por uma estranha no transporte público ou por um policial pedindo para ela esquecer o caso. A protagonista é uma persona em completo estado de abandono e passa a ser uma espécie de criança, que precisa ter algum caminho a ser trilhado. A forma como o filme aborda esse estado de espírito da mulher se transportando para o ambiente, também causa uma sensação sempre de estranheza, como se todos estivessem contra ela.

Se, por um lado, o longa constrói uma relação profunda com essa protagonista, por outro, as circunstâncias com que ela perpassa são, em diversas ocasiões, um tanto quanto forçadas perante o discurso. É óbvio que a narrativa quer falar sobre a violência policial contra pessoas pobres, isso está trilhado desde que o drama aparece fortemente nos acontecimento. Contudo, a obra, apesar do pouco tempo, busca reforçar isso cada vez mais, chegando a tornar um tanto quanto desfocado. Se a produção sabe bem observar cinematográfica a sua personagem perante o universo, o mesmo não pode ser dito do contrário.

A Mãe também perde o peso na ideia do relato ao demonstrar a cena final de Valdo na história. Se antes, tudo não passam de relatos, totalmente críveis, isso começa a ganhar um escopo até bobo em muitos instantes, mesmo em um relato tão sério. Apesar de soar uma vontade mais panfletária do que estética propriamente dita, o filme se sustenta bem nesse olhar de uma mulher perdida, quase que em transe, na busca por algo do filho. A reprodução do real, nesses casos, talvez faça até mais sentido do que uma tentativa de de usar da realidade para criar dramaticidades.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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