Crítica – A Tragédia de Macbeth

Trazer William Shakespeare para o cinema sempre é um desafio. Não tanto pela complexidade do material, mas sim pelo fato de que não faltam adaptações cinematográficas da obra do Bardo, seja de forma direta, alterando pouco do texto e sendo fiel a ele, como Macbeth de Justin Kurzel, lançado em 2015, ou seja trazendo uma “renovação” para o material, como Ricardo III, que Richard Loncraine fez em 1995, ao trazer a obra para a Inglaterra da década de 30, ou até mesmo Coriolano, de Ralph Fiennes, que fez do texto uma obra militar contemporânea.

Desses dois caminhos, Joel Cohen – dessa vez sem seu irmão Ethan – escolheu o primeiro. A Tragédia de Macbeth respeita o período histórico do texto original, assim como seus elaborados diálogos, mas trazendo uma alta dose de estilização para a peça, com forte inspiração no expressionismo alemão. 

Para os que não são familiarizados com Shakespeare, eis a trama: Macbeth (Denzel Washington) é um general do exército escocês admirado tanto por suas conquistas em batalha quanto por sua lealdade ao rei. Tudo muda quando este encontra três bruxas (Kathryn Hunter) que profetizam que ele será Rei da Escócia. Encorajado por sua esposa, Lady Macbeth (Frances McDormand), o general assassina o Rei e assume o trono, o que leva a um caminho de paranóia e violência.

A Tragédia de Macbeth busca navegar as fronteiras entre cinema e teatro, com os cenários minimalistas ajudando a dar destaque as atuações e aos movimentos dos atores em cena, cujos figurinos são meticulosamente detalhados, figuras completas em um cenário rascunhado, seja com a iluminação ajudando a marcar forte contraste entre a luz e as sombras, algo que, frequentemente, revela também o interior dos personagens. Pouco antes da morte do Rei ser descoberta, Macbeth pode ser visto coberto pelas sombras, sinalizando os seus atos.

Além de minimalistas, os cenários também são bastante artificiais. Não se trata de construir a ilusão de que estamos em um castelo ou em um acampamento, mas trazer a impressão de que estamos no teatro, só que sem esquecer de construir uma atmosfera que só o cinema pode trazer, e atmosférico é uma excelente palavra para descrever a obra de Cohen. A construção de um clima sombrio começa antes mesmo da primeira imagem aparecer na tela, com a voz de Kathryn Hunter chegando aos nosso ouvidos, sussurrada, um tanto distorcida. O mundo de Macbeth é frequentemente opressivo, com uma neblina sempre presente e as estruturas das construções sempre parecendo engolir os personagens.

E, claro, é difícil falar de algo tão teatral sem citar as atuações, todas marcantes ao seu modo, mas quero focar em um ator específico, em uma cena específica. A de Denzel Washington no momento do primeiro duelo, que marca a sua derrocada. Sou um grande apreciador de coreografias de cenas de luta, e não esperava encontrar em A Tragédia de Macbeth uma tão interessante, onde a postura do ator incorpora de modo tão perfeito o estado psicológico do personagem. Como Macbeth acredita que não pode ser derrotado, Denzel se joga na briga, desarmado, contra um homem de espada, sua postura arrogante expressa em cada passo e avanço, usando e abusando do fisicalidade do ator nos empurrões e tapas desferidos, sendo uma sequência de luta impressionante.

A Tragédia de Macbeth não busca trazer uma nova perspectiva ao material original, preferindo confiar na força perene do mesmo, se destacando por seu visual bem distinto, que permite que os atores brilhem com ainda mais força.

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