Crítica – Alice Júnior

Transrevolução. Uma palavra que pode parecer até simples, mas é cercada de significados quando colocada sob a perspectiva de gênero. E é assim que grupo de ativistas transexuais e travestis colocam esse termo, de uma maneira a trazer o debate sobre nossa orientação sexual. Alice Júnior, novo filme de Gil Baroni, busca ecoar essa palavra em uma voz mais simples, trazendo até um gênero cinematográfico mais simples: a comédia adolescente. Em anos recentes, vimos filmes dentro desse estilo olharem para uma visão quase contemporânea da adolescência, como Oitava Série, Fora de Série, Quase 18, entre outros. A perspectiva de mulheres jovens contando suas narrativas é algo que traz uma relevância para os tempos atuais. Mas, e de uma mulher trans adolescente? Será que ela é ouvida?

É nesse ponto de vista que conhecemos a protagonista da trama, Alice Júnior (Anne Celestino). Ela precisa mudar de cidade por conta de um trabalho do seu pai, Jean (Emmanuel Rosset). A jovem, que é uma youtuber e teve sucesso em um concurso de modelo de sua cidade, agora vai para o interior em uma tentativa de compreender um novo mundo que se abre. Mundo esse não tão receptivo sobre quem ela é, especialmente com a alta carga de preconceito. A busca pelo primeiro beijo e amizades, assim, se entrelaça na própria existência de Alice.

Acima de tudo, é bem divertida a forma que Gil aborda sua narrativa. Cheio de elementos gráficos, é possível ver uma tentativa de emular uma espécie de meme ambulante (com vídeos da Gretchen, comuns como piadas nas redes sociais). Contudo, parece que esse ponto principal não traz em nenhum momento uma intensidade de reverberar algo dentro dos acontecimentos. Existe um lado dramático bem claro ali, na condição de existência da protagonista como uma mulher trans e sua necessidade e busca pela aceitação. Entretanto, ao emular demasiadamente seu lado experimental, vemos uma obra sem um verdadeiro foco – já que aqui, não trata-se de uma comédia propriamente dita. Um dos exemplos é quando ela sofre transfobia sobre o uso do banheiro e o longa trata isso como uma piada.

Mesmo assim, o elemento de gênero é o grande diferencial para que a produção funcione. Os dilemas de uma vida como adolescente são bem simples e sempre tratados de uma forma quase existencialista no cinema. Aqui, eles são apenas simples e bem diretos mesmos, apesar de chegarem quase atrasados em muitos momentos – como a discussão sobre primeiro beijo e ciúmes de relacionamento. O caminho das amizades são exaltados em grandes momentos, como a ida para ver o mar de Alice, Taísa (Surya Amitrano) e Bruno (Matheus Moura). Além disso, as conversas mais banais causam uma consistência temática nesse lado mais “leve” da história, que faz muito falta no outro.

Realmente, o caminho mais interessante é observar todo esse debate de crescimento e amadurecimento sob a ótica de uma mulher trans. Mais do que apenas ecoar essa dramaticidade do preconceito, é relevante observar sua vivência, algo que o filme sabe fazer muito bem em momentos sutis – por exemplo, a visita à casa de um amigo. Isso é transformado em quase tosco quando a obra é explícita ao máximo para se mostrar onipresente em nossos tempos atuais. Todo início de relação com a amizade repórter da protagonista é bem isso (“eu sou rainha da militância”, e mais).

Quando possui seu lado descontraído mais aflorado, Alice Júnior é um grande filme, que sabe divertir e trazer um olhar bem original para tramas do tipo. Existe uma reverberação até quase direta de um cinema experimental feito por Andy Warhol nesse lado. O grande problema é que o cineasta Gil Baroni tenta dar uma relevância dramática para os acontecimentos que, muitas vezes, não necessitavam disso. Ainda bastante relevante e necessário, talvez faltasse um pouco mais para que o olhar que o longa apresenta não parecesse muito mais forma do que propriamente substância.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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