Resenha – A Odisseia de Hakim (volume 1)

É interessante como a narrativa do francês Fabien Toulmé tem um caráter tão pessoal. Para além de histórias que estão intrinsicamente relacionadas a sua vida, ao se colocar como um personagem frequente das HQs, ele se torna uma espécie de fantasma por parte da obra. Esse elemento é muito presente em Não era Você que eu Esperava, líndissimo quadrinho autobiográfico. Contudo, talvez a principal realização por parte de Toulmé seja um senso de entendimento. Isso é muito presente na reflexão inicial proposta por ele de A Odisseia de Hakim, uma trilogia que teve a primeira parte lançada no Brasil agora pela Editora Nemo.

Tudo começa quando o artista está vendo um programa na televisão sobre um desastre aéreo. Aquilo o choca, ainda mais pelo grande número de pessoas mortas. Ai, em uma espécie de intervalo da cobertura desse desastre, passa uma notícia curta sobre a morte de 400 imigrantes tentando atravessar para chegar em algum outro local, na fuga da guerra. Fabien fica chocado com aquilo, pensando como aquele gigantesco número pode passar tão incompreensível. Ele até cita o fato de não ter havido nenhuma análise e nada mais profundo, além de números. Esses que se repetem todos os dias, quase sem escapatória. O caso toca o autor, que resolve contar a jornada de um desses imigrantes que sobreviveu.

A relação entre o quadrinistas e Hakim é bastante sistemática inicialmente. Apesar de não termos os detalhes de como aconteceu, há sempre uma revigorância por parte dos desenhos de Toulmé, como se estivesse buscando ao máximo até sair de quem ele é, para poder trazer com fidalgia o relato. Contudo, é também bastante curioso a forma de como aquella existência perpassa por um bom tempo de normalidade. Esse relato sobre a vida, o cotidiano dentro da Síria, é bastante interessante para causar um choque dentro do público e gerar conexão imediata. Mesmo com as diferenças culturais – até bem pouco exploradas no quadrinho -, existe uma empatia onipresente na retratação.

A partir do momento que o artista começa a quase adentrar naquela trajetória, ele se torna uma parte onipresente da HQ. E Fabien não tem medo de deixar bem claro esses tracejos, como, por exemplo, ao interromper a fala de Hakim para fazer um comentário – como um pedido se ele realmente quer contar a história – e até uma busca por reflexões no meio daquilo tudo. Os períodos em que ambos não se vêem viram chaves para o pensamento de como essa obra poderia ser trabalhada, em quase uma autoconsciência do autor ao retratar aquilo tudo. É uma reflexão constante, sobre um entendimento de uma nova realidade. Uma espécie de biografia de dois lados.

E isso vai tornando-se central para o decorrer da narrativa. O mais importante vira uma compreensão sobre as localidades e o estado de espírito do protagonista nessa existência. Interessante que para trazer essa total empatia, os quadros são sempre colocados realmente na visão desse personagem. Um andarilho dentro de um mundo que o rejeita de todas as formas e todas as maneiras. Ele tenta se adaptar, mas parece nunca realmente ser presença para alguém, ou ser até necessário. Nesse papel, há um caminho bastante existencialista, em que quem está lendo se encaminha para um papel de olhar para si e compreender qual seria o papel nesse mundo.

Apesar de algumas perspectivas até bastante clichês, é curioso como Fabien Toulmé faz um retrato de uma autobiografia, biografia e ainda um papel jornalístico. Na sua intenção de trazer uma vivacidade e entendimento de mundo, ele discute sobre o papel das sociedades e, obviamente, o preconceito. Entrentanto, é curioso como A Odisseia de Hakim tenha surgido de uma relação com a imprensa. Essa, gera narrativas e cria um senso de realidade em nossas vidas. Ao fim desse primeiro volume, urge um debate profundo sobre a transformação de narrativas.

E se a imprensa tivesse noticiado um impacto de diversas mortes por imigrantes da mesma forma que fez com um acidente aéreo? E se países do Oriente Médio e na África não fossem retratados apenas sob um poço de tragédias? Será que as vidas das pessoas residentes desses locais não teria mais importância?

 

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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