A arte da encenação no cinema: expectativas convertidas em um jogo ilusório

Tanto Noite do Jogo quanto Vidas em Jogo e O Homem que Sabia de Menos são concebidos como filmes performáticos, característica de longas que fluem propriamente em seu universo, desconstruindo e reconstruindo suas possibilidades de encenação, o que esbarra na dinâmica ator-personagem

O CORPO CÊNICO E O CORPO DO ATOR

Ao longo de sua pouco mais de centenária história, o cinema tem sido alvo de redefinições cujas variáveis dependem diretamente da relação da arte com a mutabilidade do tempo e da maneira com a qual as pessoas a consomem. Considerada uma arte performática, que, entre inúmeros fatores, se molda pela performance do ator enquanto embrião narrativo, porque de sua atuação é extraído o perfil de um personagem, o cinema, assim como outras formas de arte contemporâneas, tem presenciado um processo de cisão entre a representação (corpo atuante) e a apresentação (corpo atuado).

Assim como o ator que performa põe seu instrumento de trabalho (o corpo) em risco, o cinema que performa coloca sua estrutura narrativa em exposição demasiada, e acaba fluindo em paralelo ao desenvolvimento individual dos personagens. Sendo o cinema ou o teatro resultados de um empenho coletivo, quando todos os atores estão representando um corpo atuado, uma apresentação, a linha tênue entre performance e encenação torna-se muito fina.

Se no teatro a capacidade de performar e encenar quanto ator torna-se muito mais difícil de enxergar em uma peça, no cinema a tarefa é menos árdua, mas não menos complexa. Como exemplo dessa tese, três filmes americanos realizados nos últimos 25 anos chamam a atenção por se dissolverem quase que completamente em um jogo ilusório, cujas expectativas do público em relação à ação dos personagens se movem junto com a performance e junto com a própria obra. São eles os filmes: Noite do Jogo (2017), Vidas em Jogo (1997) e O Homem que Sabia de Menos (1997).

Curioso observar que, nos três casos, além da repetição da exposição do corpo do ator enquanto objeto encenado, há a repetição de padrões que compõem a sinopse dos filmes, podendo juntá-los por associação e quase montá-los em paralelo de forma imagética. Nos três filmes, a primeira parte do enredo deriva do mesmo princípio: personagem com alguma lacuna em sua vida é convidado pelo irmão esperto para aprender alguma lição através da desassociação entre o tempo cênico (ou seja, a “realidade fílmica”) e o tempo do ator (o tempo “real”, que também é nosso tempo). Nessa quebra rítmica, o flerte com o desconhecido através da mímica, da adivinhação e do questionamento, três tarefas que remetem a nossos instintos mais primitivos de conhecimento de mundo, dos personagens, é estendida, também à ação dos atores, que interpretam um personagem interpretando um personagem.

É como se o próprio personagem ganhasse característica de ator, e o filme sugasse essa energia de entrega para si, compondo um mosaico de possibilidades estilísticas e narrativas. Temos, assim, filmes-quebra-cabeças, no sentido mais literal e instintivo da palavra. Um quebra-cabeça, afinal, nada mais é que um jogo de construção, reconstrução e até desconstrução de um amontoado de peças que se encaixam. Os três filmes observados, portanto, são consequências de peças (as cenas) que são sempre compostas e posteriormente descompostas em esferas menores. Cada cena, cada plano possui uma característica de desconfiança, dessa forma. O que é encenação? O que é performance? Quais as barreiras entre um e outro?

Nesses filmes, exemplares de ilusão e faz-de-conta dentro de um mundo regrado que, ainda assim, não dialoga com a nossa realidade própria, com o nosso tempo real, o trivial é filmado sempre de forma a iludir o espectador, fazendo-o pensar que trata-se de algo especial, e o “importante” é filmado de forma banal, como se os personagens estivessem assistindo uma cena de um filme qualquer, e nós também. Embriagados em seus próprios universos, esses filmes propositalmente se desenrolam por muito tempo dentro da ficção performática, para apenas no final voltar à ficção encenada, que nem sempre, no entanto, é compatível com o que idealizávamos e clamávamos na nossa visão do universo encenado, que pertence aos personagens única e exclusivamente, e não ao personagem-ator.

No caso de Vidas em Jogo, por exemplo, a situação é tão incrível (no sentido de não-crível mesmo) que o filme ganha tons absurdistas no final, podendo ser encarado como uma sátira do próprio gênero pelo qual ele é usualmente lembrado, o suspense. Pois bem, quem viu o filme sabe que há uma quebra de expectativas constante, e uma tensão frequente, que no fim é totalmente desconstruída e até subtraída do produto final, ficando apenas o escárnio, o riso histriônico como forma de afirmar ao espectador: “se você viu até aqui esperando algo, toma esse outro algo”.

Dialogando de forma implícita, as três obras transformam personagens e filmes em atores e decompositores de si mesmos, sempre se reinventado, sempre se desconstruindo, custe o risco que custar, doa a quem doer (às vezes literalmente).

 

FICHA TÉCNICA DOS FILMES ANALISADOS

 

  • A Noite do Jogo (Game Night, 2017)

DIRIGIDO POR: John Francis Daley e Jonathan Goldstein

 SINOPSE: Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) participam de um grupo de casais que organizam noites de jogos. O irmão de Max, Brooks (Kyle Chandler), chega decidido a organizar uma festa de assassinato e mistério e acaba sequestrado, levando todos a acreditarem que o sumiço faz parte da misteriosa brincadeira. Os seis amigos competitivos precisam então resolver o caso para vencer o jogo, cujo rumo vai se tornando cada vez mais inesperado.

GÊNERO: Ação, comédia e policial

 

  • Vidas em Jogo (The Game, 1997)

DIRIGIDO POR: David Fincher

SINOPSE: Nicholas Van Orton (Michael Douglas) é um banqueiro milionário que acorda apreensivo e preocupado no dia em que completa 48 anos de vida. Motivo: seu pai havia se suicidado exatamente com esta idade. O dia de Nicholas, que já começa estranho, piora ainda mais quando ele ganha um presente especial de seu irmão Conrad (Sean Penn): um cartão que lhe dá acesso a um divertimento diferente, completamente inédito, promovido por uma suposta empresa chamada “Serviços de Recreação do Consumidor”. A partir daí, a vida do milionário se transforma num verdadeiro inferno: todos à sua volta parecem querer matá-lo, e nem a polícia é capaz de entender o caso. Diante disso, o perturbado banqueiro percebe que terá de lutar sozinho para se manter vivo.

 GÊNERO: Drama, mistério, suspense

 

  • O Homem que Sabia de Menos (The Man Who Knew Too Little, 1997)

DIRIGIDO POR: Jon Amiel

SINOPSE: Wallace (Bill Murray) é um americano que viaja até a Inglaterra para passar seu aniversário com James (Peter Gallagher), seu irmão. Ao ver o irmão James fica feliz, mas como tem um importante jantar de negócios com alemães e Wallace não é a pessoa ideal para estar neste tipo de reunião, ele lhe paga para participar do Teatro da Vida, uma representação interativa onde o palco é formado pelas ruas e casas e, mesmo sem decorar as falas, a pessoa é o astro de uma história, na qual artistas contratados guiam o novo ator.

GÊNERO: Comédia, policial, suspense

Comentários

Pedro Daher

Tenho tantas ideias quanto cabelo na minha cabeça, e dizem, e eu concordo com quem diz, que gosto de transportar o que se passa em minha mente inquieta para o papel físico ou para o texto reproduzido na tela do computador. Entre minhas principais paixões estão vários elementos que compõem a cultura pop, como a música e o cinema, em suas mais diversas formas, e a escrita que traduz em sentimento esses interesses.

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