Crítica – Capitu e Capítulo

É engraçado e até meio curioso como Capitu e Capítulo parecem que não saíram da nossa realidade comum, cotidiana. A estranheza colocada e indiciada desde os primeiros momentos na direção do gigantesco Júlio Bressane, quase colocam o telespectador numa situação de um mundo dentro de outro mundo. E parece realmente essa intenção do cineasta ao colocar Dom Casmurro (Enrique Diazrepensando e trabalhando, de forma quase dramatizada, a história dramática de sua vida. Muito mais do que apenas pensar numa transposição do que aconteceu, Bressane está atrás de um certo entendimento de mundo desses personagens, a ponto de nem mais entenderem mais quem são ali. Por isso, faltam nomes e sobram perspectivas.

É desse jeito que começa a história da produção que vai olhar, de forma teatral, para diversos entendimentos sobre o relacionamento de Capitu (Mariana Ximenese Bentinho (Vladimir Brichta). Através disso e de observações sobre o passado e futuro, quase de forma manipulativa temporalmente, olhamos tudo que aconteceu, a fim de tentar responder uma das perguntas que mais atinge a literatura brasileira de todos os tempos: afinal, Capitu traiu ou não Dom Casmurro?

Mas, como dito antes, Bressane pouco analisa respostas dentro do filme. Existe um caminho muito mais curioso para essa direção, que é de percorrer esses corpos de forma mais profunda, quase como se eles pudessem falar sem realmente se expressar. Uma sequência que transmite bem isso é no momento de uma discussão entre Capitu e Bentinho, ela diz para ele escolher entre a mãe e ela. Nesse instante, e sem resposta, o personagem masculino da cena abaixa a cabeça e, buscando elucidar elementos no meio daquilo tudo, a direção resolve focar nos detalhes dos corpos dos dois. Existe realmente uma tensão sexual ali, ou é algo que parece bem mais atrelado a forma como eles enxergam um ao outro?

Capitu e Capítulo abraça realmente sua ideia de um longa que vai usar e abusar do caminho experimental de seus personagens. Pouca interessa situações mais concretas aqui, como um momento marcante. O objetivo é justamente tentar analisar um caráter psicológico que vai transmitir todo o questionamento que perpassa o livro de Machado de Assis. Desse jeito, é até curioso a forma como observamos Casmurro como uma figura bastante onsciente nessa história, quase como se comandasse todos os acontecimentos. Por um lado, sim, já que está “escrevendo” o que estamos assistindo. Por outro, ele também se transforma em apenas mais uma figura, mais um fantoche atrás desse universo que está sendo fundamentado.

Só que o grande problema dentro da produção é de viver em uma certa concretude que nunca realmente existe na obra. Assim, se há momentos, por exemplo, de uma dança que vai expressar a tristeza ou alegria desses personagens, isso acaba também pouco dizendo sobre o caráter mais “tridimensional” do trio principal e de que forma eles estão lidando com isso tudo. Ao fim, Capitu e Capítulo parece quase um filme onipresente dentro dessa perspectiva de universo, como se realmente não houvesse uma encenação ali dentro desse mundo. O grande problema é que, para o cinema acontecer, essa encenação precisa existir ao longo de tudo.

Esse texto faz parte da nossa cobertura do Olhar de Cinema 2021

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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