Crítica – Jett (1ª Temporada)

O mundo do crime não é nenhum estranho para as telas, tanto de cinema quanto de TV. Os meandros desse submundo sempre foram material para grandes obras, então, certas características desse gênero são bem familiares para os espectadores. Esses acabam sempre por saber certos trejeitos e mais ou menos o que esperar ao assistir algo. Jett sabe disso e, mesmo aderindo a uma fórmula, ela consegue mudar os elementos e oferecer uma experiência divertida e até deveras inusitada.

Jett, dirigida e roteirizada por Sebastian Gutierrez, conta a história de Daisy “Jett” Kowalsky (Carla Gugino), uma famosa ladra recém saída da prisão que procura deixar a vida de crime para trás e focar na criação da filha, Alice (Violet McGraw). Entretanto, a oferta de um velho amigo, o traficante Charlie Baudelaire (Giancarlo Esposito), para roubar um anel do cofre de Miljan Bestic (Greg Bryk),a faz retornar aos velhos hábitos. Naturalmente, o trabalho dá errado, algo na qual faz Jett se emaranhar ainda mais em um ambiente cada vez mais traiçoeiro.

É uma típica história de um criminoso que não consegue se distanciar do passado. Nesse sentido, Jett não procura reinventar a roda, mas consegue usar a expectativa que temos do gênero para subvertê-las em alguns momentos. Por exemplo, algo muito comum em obras do tipo é a bomba no carro, que explode assim que ele é ligado. No segundo episódio, após uma discussão particularmente tensa entre um juiz e Charles Junior (Gentry White), o primeiro, ao retornar ao seu carro, imediatamente se lembra dessa possibilidade, e pede que Junior ligue o carro, algo feito por esse sem maiores problemas. Contudo, uma bomba no carro, a ativação dela só é diferente, acabando por ser explodida alguns minutos depois. Ao invés de simplesmente utilizar o clichê, Gutierrez constrói um divertido momento que deixa os espectadores sem ponto de referência, dando uma bem vinda aura de imprevisibilidade para tão conhecido território.

Entretanto, o seriado não procura surpreender pelo simples fator  “surpresa”. Os acontecimentos chocantes sempre soam orgânicos, ao invés de serem reviravoltas baratas. Personagens importantes morrem durante a temporada, mas sempre como consequências de seus atos, nunca por um choque barato. Assim, cenas tensas são realmente tensas. Uma cena em que um personagem decide fazer roleta russa com si mesmo se torna particularmente aflitante porque a arma pode disparar a qualquer momento, ninguém está seguro.

A exceção a essa regra, é claro, é a própria Jett. Carla Gugino está em um de seus melhores momentos e, mesmo se todo o resto da série fosse medíocre, a sua interpretação como a ladra já seria o bastante para manter interesse na produção. Sua protagonista é prática, objetiva e confiante, com Gugino incorporando essas características de forma maestral, sempre econômica nas suas expressões e atos. Uma das piadas recorrentes do show é que quase todo mundo está apaixonado por Jett de certa forma,e é fácil de entender o porquê. A gatuna é linda, inteligente e letal quando necessário.

Isso não significa que a personagem é um Deus Ex Machina ambulante que tudo sabe e resolve. Pelo contrário, as coisas às vezes saem do controle e parte da graça é ver a criminosa lidando com eventos fora do seu controle e como ela contorna isso a seu favor. Jett não é infalível, e isso só engrandece a personagem. Além de deixar maiores pontas abertas para a expectativa do público aumentar.

Na era do Peak TV, onde muito conteúdo televisivo é produzido e nem sempre se tem tempo para assistir tudo, certas jóias acabam passando despercebidas. Jett não é perfeita, mas o modo como Gutierrez se utiliza de clichês do gênero para construir uma relação própria com o mesmo é eficaz. Se isso não for o bastante  para assitir, ver Gugino roubar a cena sempre que aparece dificilmente será cansativo. 

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