Crítica – Missão No Mar Vermelho

No início de Missão No Mar Vermelho vemos Ari (Chris Evans) saindo correndo de um camburão de resgate para poder encontrar um menino pequeno que ficou pelo caminhos. Os pais desses parecem tensos, como é mostrado pela câmera, contudo não se mexem para ir até lá. O fardo fica com o jovem branco americano. Passando por essa visão extremamente exteriotipada é possível ter a grande questão do roteiro desse novo longa da Netflix: a salvação ocidental. Sua frase ao fim dessa sequência primordial (“não deixamos ninguém para trás”), torna-se o grande mote para todos os acontecimentos dessa trajetória.

Não havia problema algum em contar essa história, até pelo fato dela ser baseada em fatos reais. Ser baseada na busca de alguns agentes especiais americanos de diversas pessoas no meio de uma guerra civil e ditadura no Sudão, no de 1977. Entretanto, o maior problema enfrentado pela obra é querer buscar uma diversão nisso tudo. Falta coesão, falta um sentido interno para os acontecimentos realmente fazerem um sentido mais lógico esteticamente e narrativamente. O diretor e roteirista Gideon Raff parece querer contar bem mais do que poderia com a sua trama básica. O roteiro aqui quer sobresair-se em algo muito maior, sendo totalmente básico.

Nisso, toda a encenação de Missão No Mar Vermelho parece uma confusão só. O sentido temporal e espacial aqui é estabelecido inicialmente de um jeito, algo especialmente relatado pelas transições de lugares do protagonista (sua ida até a agência americana, depois o recrutamento e etc.). Próximo a metade, tudo isso estabelecido parece totalmente jogado por terra para um outro sentido de desenvolvimento narrativo. Poderia ser até interessante toda essa questão e deslocamento, todavia é apresentada sem sentido algum e trocada a todo instante. Um exemplo claro nisso é quando o grupo de turistas chega ao hotel comprado por eles para ser o local dos refugiados. A câmera parada é aberta cada vez mais para os personagens virem até ela e formarem uma espécie de equipe especial. Algo visualmente brega e total fora de contexto espacial na mesma cena.

Esses fatos também trazem um extremo problema de tom dado na produção. A comédia e uma tentativa de drama são trocados durante bastante tempo, incluindo em períodos mais tensos. Quando Ari apresenta o plano e começa seu recrutamento para alguns ajudantes, existe toda uma criação própria pela montagem de Tim Squyres. Os cortes e toda a troca de um enquadramento mais rapidamente parecem quase querer quebrar uma certa regrade planos, algo próximo ao trabalho de Adam McKay. Apesar de ser até bem estabelecido, isso é totalmente perdido logo em próximo instante. Toda essa mise-en-scéne própria gerada para uma estética da equipe, parece não fazer sentido em um contexto mais problemático. O maior defeito é tentativa de estabelecer isso anteriormente.

Todo esse trabalho acaba sendo bem realizado pela direção mais próximo ao fim. Quando é estabelecido um tom mais claro sobre o suspense e uma busca constante no uso da escuridão pela fotografia de Roberto Schaefer – explicitamente mais trabalhado na cena do jantar. É nesse período que o longa parece tomar um rumo mais claro de desenvolvimento, gerando pequenos períodos de uma extrema tensão cênica. O uso dos cortes quando os carros estão chegando constrastando com a necessidade de entrada no avião pelos refugiados gera o melhor momento de todos. Quando a obra consegue uma consolidação própria ela acaba sendo finalizada. Tudo construído parece simplesmente não servir para levar nada a lugar algum.

Missão No Mar Vermelho é um filme que parece muito mais interessando em enaltecer os heróis brancos da história do que propriamente desenvolver uma questão cinematográfica sua. Esses pontos são feitos em um sentido tão claro, na qual fica possível ainda mais perceber quando o hotel liderado por deles é todo pautado em uma beleza, enquanto as vilas africanas acontecem apenas no caos. Caso buscasse apresentar isso como um contexto mais direto, poderia até ser mais justo, o maior problema é o longa querer ser mais. E quando ele tenta, não consegue.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *