Crítica – Nardjes A.

De que forma pensar figuras políticas? Esse questionamento pode parecer até bastante simples, entretanto é bem mais complexo. Se em alguns casos obras busquem celebrar esses seres, em outros a ideia é bem mais um confronto de ideias. Nisso, estamos a par de entender os elementos que transformam quem esses políticos, seja por profissão ou ideologicamente, são. E é nessa busca constante de uma compreensão da individualidade perante a luta coletivo que a narrativa de Nardjes A. é consolidada, ao acompanhar 24 horas da vida da jovem militante argelina Nardjes.

A direção de Karim Aïnouz tem uma espécie de resquício do tempo. Ele que foi para o país em busca de entender mais sobre suas origens, devido a ligação familiar que possui com a Argélia. De certa forma, é um filme autobiográfico, nessa intenção da busca por si mesmo, em entender o que ele é nesse emaranhado de pessoas e sensações. E a conexão com a protagonista da história, se dá por uma questão de identificação política. É possível ver como Aïnouz tem uma intencionalidade em se colocar naquela personagem, em perceber que poderia ser ele ali. E, de fato, é ele também, nas constantes manifestações e formas de viver. O cineasta se põe como um ente vivo do tempo e espaço que compõe.

Entretanto, há uma perda absurda nessa maneira de racionalizar todo o debate das manifestações pelo país. Isso se deve especialmente ao fato de que, por estarmos apenas com essa protagonista da trama, pouco entendemos uma conexão histórico temporal. O documentário também se priva de uma análise mais profunda sobre aquela realidade, ainda mais tendo sido feito enquanto os fatos acontecem ainda atualmente. É como se fosse uma tentativa de recorte da história para algo que não foi completo, deixando diversas lacunas e colunas incompletas. Isso também traz uma falta de um verdadeiro entendimento sobre o que signfica aquilo tudo que estamos vendo.

Dessa maneira, é até bastante interessante o conceito de Nardjes A. de trabalhar em um modelo quase experimental. É uma produção que evoca bastante o sensorial, dando espaço para câmeras lentas, pelo eco das músicas, tentando quase transportar o telespectador para esse universo filmado. Karim tenta, assim, ser uma espécie de voz eloquente, onipresente, quase como se estivéssemos vivenciando essa realidade como se fosse nossa. E esse ponto não é apenas no caráter próprio da narrativa nos protestos, mas também nas cenas fora dali, como a dança próximo ao fim e o início.

Cheio de intencionalidades, o filme parece uma obra perdida no tempo. A direção não sabe se busca trazer uma realidade para compreender o que está acontecendo, ao mesmo tempo que tenta se compreender na existência desse cosmo. A vida de Nardjes pode ser até bastante interessante de ser acompanhada, mas parece tudo bastante simplista, perdendo espaço para uma realidade que poderia ser, definitivamente, retratada. Desse jeito, o telespectador parece quase ter entrado em contato com uma espécie de nada temporal. Ao mesmo tempo que sabe a conclusão de certas questões da Argélia no tempo presente, também sabe pouco da relevância desse movimento. Da mesma forma que sabemos quem é aquela mulher, também pouco estamos conectados com sua relevância para qualquer movimento que seja. Em uma tentativa de Karim Aïnouz de ser mais um documentarista dessa realidade dos países árabes e africanos, de produções como The Square, Nardjes A. parece ser apenas um meio termo sem quase nada.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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