Crítica – It: Capítulo Dois

Uma das maiores virtudes em It: Capítulo Um é ser assumidamente um filme de terror. Ao não ter medo de explorar, desde a primeira cena, um lado visual e gráfico do gênero bem forte, a obra acaba funcionando ao saber quando trabalhar com as diversas temáticas. Ou seja, a amizade, o companheirismo, a luta ante a exclusão social acabam sendo bem trabalhados quando estamos em um universo na qual visa culpabilizá-los, algo amparado pela figura do palhaço Pennywise (Bill Skarsgård). Passados 27 anos dentro da linha cronológica narrativa, It: Capítulo Dois retoma esses personagens para novamente enfrentarem o palhaço, retornando a cidade de Derry. Mike (Isaiah Mustafa), o único na qual ficou na cidade todo esse tempo, liga para os amigos em busca de finalizar essa batalha.

Esse lado assumido do primeiro longa é talvez um dos elementos mais em falta aqui. Aliás, toda a dependência absurda desse filme ao primordial acaba sendo um dos fatores em que atrapalham essa trama andar com as próprias pernas. A necessidade em ambientar a audiência – o flashback de abertura deixa isso bem claro – quase parecem não querer contar com a memória do público para o trabalho anterior. Existe até uma interessante colocação em como estão todos do clube dos perdedores nos dias de hoje, sempre percebendo correlações com seu passado. Seja pelo lado abusivo, algo muito bem representado por Beverly (Jessica Chastain), seja pela fixação em mudar completamente, colocando com perfeição na figura de Ben (Jay Ryan).

O problema maior acaba sendo quando esses elementos, até bem colocados a prióri, são deteriorados devido a necessidade do diretor Andy Muschietti em remeter a primeira produção. Já é pontuada essa clara demonstração de como eles cresceram sendo as mesmas figuras do passado, contudo esses elementos servem apenas de pontapé. O verdadeiro desenvolvimento do presente são apenas as mesmas atitudes e situações sem final do passado. Talvez o maior exemplo para isso seja o fato de, quando vemos todos se separando para buscarem lembranças do lugar, sempre terem uma situação similar de memória com a perseguição do palhaço. Esse elemento – repetido 5 vezes – apenas enchem ainda mais as já longas 2h49min.

Apesar disso, Muschietti sabe bem trazer diversos pequenos atos para elevar o potencial pairado no ar. A reapresentação da cidade e como ela é usada como um ambiente quase inóspito servem a essas lembranças meio deprimentes. Os personagens quase não conseguem lembrar o que fizeram para lutar ante o vilão, assim como buscam não lembrar dos sofrimentos contidos na sua infância/adolescência. O passado aqui é uma sombra, assim como a cidade parada no tempo. Mesmo tendo alterado o lugar aonde eles propriamente vivem, tudo em Derry irá continuar presente ali, nas pequenas ações e nos pequenos sentimentos.

Esse maior apego acaba sendo o primoridal elemento dessa história. Existe um certo lado mais perene de como é pensada essa interligação a como o passado constrói nosso futuro. É algo até tentado fazer pela direção e pelo roteiro, porém a encenação acaba utilizando essas questões como uma muleta a sempre rememorar os mesmos gestos e passos presentes no longa anterior. A utilização frequente das crianças demonstra até uma certa incoerência do discurso, na qual até está predisposta a gerar esses vínculos temporais, todavia ainda totalmente amarrada para um lado, sem desenvolver os pesos das consequências futuras.

Por essas grandes circunstâncias narrativas, It: Capítulo Dois acaba sendo um filme muito pouco próprio. É uma obra inteiramente dependente de tudo, sem possuir seus reais desenvolvimentos ou até um eixo dramático melhor construído. Ao fim, no grande clímax, o longa consegue trazer ainda esses impulsionamentos do horror diretamente, como ao abusar do sangue em uma sequência específica. É um trabalho feito quase pensando em uma nostalgia meio barata, porém, uma nostalgia de uma produção de pouquíssimo tempo atrás. Esses fatos ainda causam um sufocamento cênico para os atores aqui, tendo menos espaço para verdadeiramente desenvolverem algo maior. Falta a obra estabelecer mais da sua própria linguagem, sem ter medo de lidar com os pesos e relações disso, buscando estabelecer-se a si mesma como algo particular e não, apenas, uma continuação.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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