Crítica – Nova Ordem

A convulsão social atinge o mundo nos últimos anos. Talvez os anos 2010 possam até ser chamados como os novos anos 60, por tantos acontecimentos que marcaram o mundo inteiramente conectado. Para rememorar o início do século, era a Primavera Árabe que tomava conta da sociedade de alguns países asiáticos e africanos. Isso reverberou no Brasil com os protestos de 2013 por aqui. Em anos seguintes ainda teve-se a Occupy Wall Street, os protestos por uma nova constituição no Chile, entre outros. No ano de 2020, mais manifestações chilenas, o movimento Black Lives Matter, a luta contra o ditador da Bielorrússia, entre outros. No meio disso, o México também enfrentou diversos protestos, entre eles mais recentes sobre a condução do presidente do país perante ao coronavírus.

Nesse mundo enfervescente, Michel Franco tenta analisar até que ponto verdadeiramente chegamos – visto o nível de violência ter aumentado com o tempo na sociedade nessas manifestações – nessa guerra de classes. Os pobres, cada vez mais sofrendo, visam tomar seus direitos e o poder, especialmente os mais jovens. Os ricos, incomodados com essa ascensão, começam a querer viver em outras realidades. É nesse mundo de intensos conflitos que acompanhamos a trama de Nova Ordem, que ocorre em um ponto de futuro próximo no México.  Mais especificamente em uma festa de casamento de uma família rica, a qual grupos de revolucionários começam a invadir o local visando tomar o controle. No meio disso, o Exército, que já controla o país, reprime com maior violência toda essa revolta.

Franco, sem sombra de dúvidas, está em busca do choque. Acima de tudo, é um longa sobre isso, os choques da sociedade de classes e o choque por si só, por acompanhamos toda essa situação de violenta brutalidade. O cineasta não tem uma intenção de propriamente desenvolver histórias únicas, dando dimensões a alguns personagens ou a algum grupo especificamente. Assim, ele coloca todos como forte eclodidores desse conflito que irá seguir ao longo das quase 1h30. Diretamente, por acompanharmos os revolucionários atacando a família rica, é como se estivesse em uma ideia do simples ataque dos pobres. Contudo, Michel Franco traz para uma análise em seu filme algo bastante comum a todos os locais do mundo: a exploração dos ricos ante os pobres. Assim, é como se realmente existisse uma justificativa para esses atacarem diretamente.

A narrativa não busca heróis e nem vilões. É tudo uma grande disputa de poder, uma grande análise desse cosmos de mundo pronto para explodir. Rememora até alguns elementos sobre longas recentes de sucesso, como o caso de Parasita e Coringa. Porém, enquanto esses assumem algumas posições diretamente ideologizadas, em Nova Ordem existe um caminho mais neutro, sem tentar defender lados, e sim apontando dedos. Assim como vemos a atitude violenta dos pobres perante os ricos, como até casos de estupro, também sabemos da existência de casos similares fora desse contexto, em um mundo real. Ao colocar esse caminho quase do meio, o cineasta assume riscos de interpretações variadas, a qual a obra pode assumir um papel conservador ou até pró-revolucionário. Contudo, a ideia é justamente analisar esse contexto e levantar o debate para a audiência.

Nesse mundo nada simples, é curioso como Michel Franco assume um caráter simples de seu universo. Ele tira espaço para maiores motivações, afim de colocar todo esse debate socio-político em uma camada extremamente primordial. Em uma perspectiva sociológica, é uma forma do diretor tentar entender a origem disso tudo, compreender os porques dessa questão. Como dito anteriormente, isso pode gerar perigosas interpretações, porém não é o objetivo do longa deixar claro nada, e sim abrir um debate social, em um mundo já extremamente politizado em dualidades.

Em sua direção bastante fria, quase distante dos acontecimentos, bastante documental até, Franco caminha para algo até próximo que seu conterrâneo Alfonso Cuáron faz em Filhos da Esperança, ou até do trabalho de Elio Petri em A Classe Operária Vai ao Paraíso. Contudo, em Nova Ordem – uma ironia até no próprio título, já que vemos algo que sempre aconteceu apenas se repetir -, entramos em um universo que não há lado certo, apenas lado. A visão do cineasta é justamente essa: se chegamos ao ponto que chegamos, aonde isso pode nos levar? Será que vamos propriamente chegar em um estágio de guerra? A defesa da narrativa acaba por ser retornar uma visão central da política, do diálogo, e nada revolucionário. Isso pode parecer até estranho para um ano que o mundo demonstra quase o contrário. Contudo, Michel Franco defende com veêmencia, através dos choques, em como nossa realidade chegou aonde chegou.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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