Sexo, amor e amadurecimento em Sex Education

Talvez um dos temas mais debatidos no Brasil contemporâneo seja o da educação sexual nas escolas. Concordando ou não, a sexualidade tem sido inserida na vida humana de forma cada vez mais natural e cada vez menos pela família. Influências externas, amigos ou até um simples site pode abrir uma nova lacuna da vida de uma pessoa. Todavia, ao chegarmos na adolescência, é quando atingimos o auge disso tudo, transformando todo esse sentimento acumulado em uma vontade de executá-lo, nos tornando, como brinca Meninas Malvadas, quase animais sexuais.

Sex Education busca debater sobre essas temáticas, a partir de uma perspectiva quase reversa: do menino Otis (Asa Butterfield) que não consegue atingir o orgasmo. Além desse problema, ele não perdeu sua virgindade e conta com o fato de sua mãe ser uma terapeuta sexual. Abrangendo essas experiências e ainda tendo um outro ponto de vista nesse universo sexual, ele monta uma espécie de clinica sobre sexo para alunos do colégio aonde estuda, em conjunto com sua colega de classe Maeve (Emma Mackey) e Eric (Ncuti Gatwa). Ao falar sobre sexo, porém, a obra quer explorar o lado animalesco e racional da juventude.

A condução do roteiro se baseia em uma mistura bem clara – e até clássica do cinema americano dos anos 40 e 50 – de drama e comédia. Enquanto o primeiro serve para potencializar as relações individuais, como a ideia bem clichê de que todas as pessoas possuem um lado com problemas, o segundo tem um objetivo claro de brincar sempre com as dinâmicas dos personagens, dado o fato do protagonista nunca ter feito sexo e ainda assim orientar as pessoas a respeito disso. Inclusive, sobre o ponto dramático, ocorre até um certo esforço de falar de que maneira essas relações problemáticas familiares habitam no cotidiano. Os personagens Adam (Connor Swindells) e Jackson (Kedar Williams-Stirling) são, inclusive, pontos fundamentais dentro dessa questão, ambos colocados sob um véu de esteriótipo a ser desconstruído. Com isso em mente, fica até óbvio como o seriado aborda uma relação direta aos filmes adolescentes dos anos 80, principalmente Clube dos Cinco (os momentos dentro da sala de aula são bem referenciais), porém contemporizados.

Apesar desse esforço da dualidade narrativa, os tons nunca parecem se encaixar tão bem. Toda essa relação com a montagem, em nunca perceber realmente a seriedade de um acontecimento, abre margem para um simples tangenciamento nos mais diversos assuntos. Desde alguns até relevantes ao arco principal (a homossexualidade de Eric), até outros menores, que acabam sempre em uma vírgula cômica (como a sequência do aborto). Há uma necessidade em nunca querer aprofundar nesses pontos, o que torna toda o enredo inchado de pequenos arcos pouco intrínsecos a linha principal – toda a aparição dos quatro famosos do colégio é um grande exemplo disso. Entretanto, a direção trata toda essa matéria com um nível quase teatral, realizando diversos planos sequências aonde um acontecimento termina para outro começar. Essa decupagem se preocupa bastante em abordar a maneira na qual esse potencial narrativo vai encaixar durante os oito episódios.

Dentro dessa esquisita condução, ainda se tem espaço para o desenvolvimento de temáticas importantes, algo que é o DNA da própria série. A temática da sexualidade é abordada desde a primeira cena, mostrando um sexo quase explicitamente e trazendo uma outra abordagem para o mesmo. Essa construção em etapas ainda torna tudo mais interessante ao arco do personagem principal, quase como uma forma de analogia ao seu crescimento individual sobre o sexo. Quando se diz dessa memória dos anos 80, é impossível não comparar as abordagens, levando a Sex Education quase participar de discussões atuais, falando sobre masturbação feminina, uso de drogas, depressão, amor próprio, entre outras. É impressionante como a produção busca o tempo todo se manter relevante nos tempos atuais, sendo, às vezes, um pouco forçada nisso – como a recorrente piada da menina que quer transar -, e em outras mais natural, como sua abordagem sobre dependência amorosa.

A primeira temporada de Sex Education trabalha de maneira bem honesta e direta toda a temática de amadurecimento e sexualidade. Apesar de se soar repetitiva e até, em alguns momentos, pedante, a série consegue trabalhar de maneira direta, buscando uma certa relevância para os jovens atuais. Muito mais do que um produto para um canal de streaming, parece ter sido feito de forma a ser realmente um paralelo da realidade, mesmo em uma história que busca um lado bem mais fantasioso de tudo. Para o seriado, a maior importância é falar sore a atualidade. E, dentro dessa proposta, ela vai direto ao ponto.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *