Dead Pixels e o amadurecimento

A vida, na grande maioria dos casos, é extremamente difícil. Trabalho, contas, cansaço, falta de tempo. Por isso o entretenimento surge como uma válvula de escape para as grandes problemáticas da vida, acabando sendo sempre deixados de lado na sua importância aos humanos. Por isso vivemos em uma era das imagens, na qual os stories, games e filmes com mais imagens fazem mais sucesso. A necessidade de fuga da realidade nunca esteve tão evidente, até mesmo para relacionamentos amorosos. É o que o sociólogo Zygmunt Bauman diz sobre amor líquido. E é sobre isso também que Dead Pixels irá tratar sobre: amadurecimento, amor, problemática e ser jovem nesse estágio do mundo.

Na história, um grupo de amigos foge das responsabilidades da vida através de um jogo de MMORPG. Meg (Alexa Davies) divide uma casa com Nicky (Will Merrick) e Alison (Charlotte Ritchie). Enquanto os dois primeiros são totalmente viciados no game, a terceira tenta sempre trazê-los para fora dessa realidade virtual. Ao mesmo tempo, em outro lugar do mundo, Usman (Sargon Yelda) joga com os dois, deixando de lado sua mulher e filhos.

A prióri, a premissa aqui remete a uma trama totalmente voltada ao drama. Além da possibilidade de explorar os problemas da geração millenium, também poderia buscar falar a confusão desse mundo da tecnologia. Entretanto, o criador e roteirista Jon Brown leva toda essa trajetória para um lado cômico, buscando rir desse momento dos personagens. Não chega a ser um riso crítico ou até de bullying por suas ações, mas sim de percepção por parte do público. De perceber uma certa conexão com cada uma dessas figuras, visto que possuem não apenas uma característica de nerds. O lado amoroso também é aprofundado neles, principalmente entre Meg e Nicky. Enquanto a primeira está se aflorando dentro do prazer sexual – pelo lado de se sentir atraída por um colega estranho de trabalho -, o segundo não sabe separar bem a amizade do amor.

Essa comédia bastante voluntária acontece também dentro de toda a direção e percepção de mise-en-scène do cineasta Al Campbell, comandante dos seis episódios. Sua estrutura sempre leva uma exacerbação da montagem paralela entre as câmeras para cada um dos protagonistas e a movimentação das suas figuras no jogo. As discussões entre eles caminham em uma tangente de troca de itens até a escolha de um ator para interpretar a adaptação ao cinema (instante esse que rende boa parte de piadas de um episódio). Essa construção bizonha de mundo ainda dá espaço para a sequência de Usman realizando seu trabalho como piloto de avião e jogando. A comédia acontece sempre envolvendo a situação e temática dos episódios em si, trazendo um desenvolvimento necessário a narrativa nessas questões. É uma trajetória para cada um dos capítulos na qual potencializa no conjunto final.

Por todo esse caminho, passa o lado do amadurecimento dessas figuras. Como falado antes, alguns necessitam entender-se dentro de casa, enquanto outros precisam compreender o que é amor de verdade. É uma certa relação até interessante a cena final de todos absorvendo essa trajetória, quase levando uma catarse da amizade e do próprio game em si. Porém, o fim dessa construção climática acontece meio abruptamente, quase que por uma necessidade óbvia. Se gera uma expectativa desse fortalecimento dos protagonistas a ponto de explodir nesse ponto, todavia a explosão acontece um pouco do nada.

Terminando sua primeira temporada, Dead Pixels surge de forma interessante dentro do contexto contemporâneo na qual está inserida. Existe, inclusive, uma certa ideia de pertencimento dessa vida digital, com personagens fundamentos em um meio totalmente online. Sequências como a de Meg e Nicky jogando em horário de trabalho, parecem remeter a uma necessidade quase patológica de olhar no telefone enquanto realiza uma outra atividade. Jon Brown percebe esse mundo com muita clareza, tentando entender o espaço das pessoas no meio disso. Será que realmente demoramos mais a amadurecer agora? Qual o ponto máximo passível de ser alcançado em pensamentos sempre líquidos? Bom, a série também não quer ter essas respostas, mas possui uma vontade de debatê-las.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *