Crítica – Paixões Recorrentes

A carreira de Ana Carolina dentro do cinema nacional já é formalmente conhecida. Desde o seu incrível e cômico Mar de Rosas, de 1978, e Das Tripas Coração, de 1982, chegando até Amélia, de 2000. A diretora é recorrente dentro de algumas temáticas, em especial de analisar personagens mulheres e uma espécie de reflexo do tempo. Há sempre um lado analítico nas suas produções em quase tentar compreender o que toda essa história, esses personagens, essa narrativa, tem a ver com o tempo presente. Por isso, os dois primeiros citados aqui trazem um mal estar relativo ao período da Ditadura Militar, enquanto o terceiro parece querer entender as raízes do passado ainda onipresentes.

Paixões Recorrentes também possui seu zeitgest. No caso, no governo Bolsonaro, em um momento de domínio de um discurso mais reacionário (e não necessariamente conservador) dentro da trama política nacional. Para isso, ela vai, novamente, retornar ao passado. Mais ao certo no ano de 1939, quando o mundo já está em convulsão militar e próximo ao início da Segunda Guerra Mundial. É nesse ambiente que algumas pessoas, entre imigrantes e moradores desse país natal um tanto quanto obscuro, conversam. Eles tentam, através da bebida e deslumbramentos, observar e compreender um mundo sob domínio do medo e de ideologistas cada vez mais complexas ascendendo por toda a parte.

É interessante perceber a forma como a diretora não busca esconder em momento algum que seu filme quer falar sobre nossos tempos. Para isso, ela usa e abusa de um roteiro que faz referências indiretas – mas que são quase uma transcrição – do atual período do mundo. Oito anos após diregir seu último trabalho, o A Primeira Missa ou Tristes Tropeços, Enganos e Urucum, Carolina ainda parece ser uma cineasta com uma verdadeira vontade de teatralizar sua encenação. Aliás, o longa aqui abordado poderia facilmente ser uma peça, pelo simples fato que baseia toda sua narrativa, seus acontecimentos, pela conversa, e menos pelo como essa conversa acontece.

Desse jeito, Paixões Recorrentes parece realmente um filme que quer ser mais complexo do que realmente é. Obviamente, toda sua discussão – que acontece de forma bem explícita para o público e entre os personagens – não é nada simplista de ser entendida. Ela acontece justamente porque esses protagonistas são pessoas de diferentes visões, realidades, mundos. Em uma amálgama de perspectivas, podemos ver de que forma estamos na realidade brasileira é atualmente. Esse tom mais professoral e até meio brega, acaba transformando os ótimos momentos da produção em simplesmente uma trama vazia.

É até meio curioso perceber como o cineasta como Ana Carolina, que sempre teve um vigor estético muito grande na forma como trabalha as cenas, parece transformar seu filme em muito pouco. Ao mesmo tempo que quer ser uma grande peça de comentário político sobre passado e futuro, é também um longa sobre personagens desiludidos, perdidos, algo que quase contrasta com a tentativa de esperança que eles expressam a todo instante. Esse jogo sem fim, transforma realmente a narrativa em algo vazio, no qual o telespectador não parece se identificar em momento algum. Se queria ser política no conteúdo, talvez a diretora poderia buscar isso aqui especificamente na maneira de fazer. E não é o que acontece.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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