Resenha – Aldobrando (HQ)

Há um aspecto interessante na mistura entre o fantástico, o dramático e a inocência no entorno da HQ Aldobrando. A história, que segue o personagem título, mostra ele como uma conjunção dessas características, alguém que foi “adotado” por um mago, porém vive recluso em um mundo que pouco conhece. Ele, então, se vê sob uma situação tensa, quando seu mestre (e pai, por assim dizer) acaba ferindo o olho ao fazer uma poção e acaba falando para ele buscar uma planta que, teoricamente, seria medicinal. A inocência do garoto faz com que ele acabe sendo até acusado de uma morte que não cometeu e se envolvendo com uma disputa política em um reino próximo.

A obra com os roteiros de Luigi Critone e os desenhos de Gipi traduz um estilo até bem comum dentro de tramas no geral. Aquela em que uma pessoa improvável acaba sendo levado a um desafio impossível e que, com isso, se transforma totalmente. Já foi feita de diversas maneiras e perspectivas diferentes, desde em O Senhor dos Anéis até a luta bíblica entre Golias e Davi. Aqui, somos transportados, junto dessa ideia, em um universo que mistura o tom fantástico com algo quase farsesco. Apesar de certos personagens agressivo e de uma narrativa nada simplista, parecemos estar em contato quase com uma HQ infantil.

O mais divertido das quase 200 páginas de Aldobrando é poder acompanhar um personagem sem quase nenhum entendimento sobre nada. Não entende desde o que é o amor, até mesmo a morte e a possibilidade de perder alguém. É quase uma pessoa fria em um mundo que explora as sensações a todo momento (o rei louco e apaixonado por uma jovem que é filha da sua esposa, a constante troca de acusações, a dificuldade na relação com o outro, a tentativa de um comandar e escravizar o outro). É como se, apesar de tudo a volta estar marcado pelo mal, ele, com seu olhar quase infantilizado, fosse a possibilidade do bem prosperar.

A visão dramática sob o personagem título é outro elemento interessantemente explorado. Todo o prológo do quadrinho, introduz esse protagonista no campo político que vai ser alvo de desenvolvimento na cidade em que ele para. Claro que em conjunto de situações cômicas, vemos uma persona representado a possibilidade de fazer algo que o pai – o de verdade, no caso – não conseguiu há tanto tempo atrás. É como se, apesar de não querer, ele estivesse carregando essa continuidade da luta familiar.

Longe de ser brilhante ou genial, Aldobrando é uma HQ que funciona justamente por saber relacionar tão bem os elementos comuns de histórias do imaginário popular (as citadas anteriormente), junto de uma cara que trabalha de maneira curiosa a pureza e braveza desse universo. Por um lado, há um brutamontes, que já matou inúmeras pessoas e seus métodos são tão intensos que a própria encenação é incapaz de mostrar. Por outro lado, existe um jovem, que nem entende direito da vida, e só quer encontrar uma planta para ajudar seu meste. As relações de uma pureza desse mundo fantástico fazem Luigi Critone e Gipi criarem algo tão saboroso de se ler.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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