Resenha – A Falta (Xico Sá)

“O apito do juiz desperta um sonâmbulo meio do mundo (…). A sensação é de que fiquei no subsolo, não subi ao campo”. O início do livro A Falta, mais recente romance do escritor Xico Sá, traz uma sensação um tanto esqusita logo nas suas primeiras páginas. A mistura de flashbacks, narração do protagonista, narração de uma partida de futebol e melancolias sobre a própria carreira dão o tom das perspectivas que iremos acompanhar o goleiro Yuri Cantalago. Sob imensas dúvidas, ele, que já foi um dos grandes nomes do futebol europeu, hoje volta ao Brasil para jogar no Náutico e trata essa como sua partida derradeira.

Só que o personagem principal não é alguém obstinado, mas atormetado. Pelo recente relacionamento que terminou, pelos traumas que tem desde a infância, e, principalmente, pela profissão de goleiro que escolheu ser, uma que, apesar de ser boa financeiramente, não traz o sucesso esperado do mundo do futebol. Na realidade, trouxe apenas desgosto e problemas, principalmente pelas falhas que teve ao longo da carreira. Ele mesmo destaca o quão ingrata é a vida de um guarda-redes, que pode ir do céu (ao defender um pênalti) ao inferno (ao furar uma bola no lance seguinte). É uma persona responsável quase que na totalidade do time que está defendendo, porém Yuri perdeu a capacidade disso tanto no âmbito profissional, quanto na vida pessoal.

O interessante do livro de Sá é a forma como esse relato ganha projeção. Os capítulos, dividido em cada um dos minutos do tempo de um jogo de futebol, refletem também a profundidade em que iremos adentrar na cabeça dessa figura. Desde em seu caráter mais básico e recente, como a relação amorosa que tinha, a vida na Europa, a transferência para o Brasil, as dificuldades de adaptação, até mesmo o complexo, que remete a construção do que ele é hoje, como os abusos nas categorias de base e a difícil sombra do pai, outro grande goleiro famoso.

A Falta reflete uma espécie de olhar fraternal para uma das figuras mais complexas do futebol. O goleiro é alguém que precisa ter uma verdadeira fortaleza emocional, que vai sendo desconstruída no decorrer da narrativa. Mais do que isso, essa apatia pela própria existência no modelo atual, faz com que tudo também se transforme em apático. Desde a narração (um elemento mais cômico da escrita), reforçando a todo instante a chatice do jogo, até mesmo quando retornamos ao presente, em que Cantagalo diz como todos a sua volta, dos dois times, devem estar percebendo sua indiferença para a disputa que está acontecendo.

Apesar dessa visão, a escrita reforça uma grande brincadeira estética da tensão da própria vida e dos acontecimentos de uma partida de futebol. Ou seja, ao mesmo que desmistifica a ideia propriamente do jogador, Sá também traz um olhar mais presente dos acontecimentos, em um passe, um chute, um pênalti. Todas as colocações, sempre pontuadas em uma visão mais engraçada pela narração, fazem o leitor nunca esquecer que estamos acompanhando algo profissional, uma verdadeira partida de futebol. Ou seja, apesar dos pensamentos, dos olhares distantes, das reflexões pessoais e sobre a vida, todos ali estão trabalhando, no fim das contas.

O tamanho curto e a agilidade narrativa, fazem de A Falta um livro indispensável para os fãs de narrativas psicológicas e também do esporte retratado. Xico Sá constrói uma obra que mescla essas próprias ideias individuais sob seu protagonista, junto de um âmbito histórico curioso para o futebol, como se ele fosse parte de um universo muito maior do que realmente apenas suas opiniões pessoais. Ao fim de tudo, ele pode encerrar a carreira, desistir, se aposentar ou até se matar, porém terá seu lugar marcado na memória coletiva. Essa, que consolida através do futebol, a maneira como toda uma sociedade e mundos pensam.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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