Crítica – Serial Kelly

O início de Serial Kelly apresenta contrastes da personagem título (interpretada por Gaby Amarantos) que veremos no decorrer da trama. Por um lado, uma cantora de forró/axé eletrônico em um baar pequeno em um local totalmente isolado, em que não sabemos muito bem a localização. No momento seguinte, aquele em que são mostrados os créditos, uma mulher que assassina um homem a sangue frio no meio do mar e saindo da cena do crime logo em seguida, com um olhar de satisfaçãao. Essa dicotomia é importante para compreendermos Kelly, uma serial killer que começa a matar, especialmente, pela forma como é tratada por homens no decorrer da vida. As mortes são uma espécie de vingança particular.

Ao menos é isso o que o diretor  apresenta em seu eixo temático principal. A protagonista tem seu lado animalesco, que mata e também faz sexo – a cena entre ela e Tempero (Igor de Araújo) é um retrato bem forte disso. Ao mesmo tempo que também tem uma interpretação mais fria sobre tudo, e em uma eterna tentativa de se reconhecer, de se entender no mundo. Por isso, o longa se abre com dois momentos bem distintos: o primeiro, em sua apresentação, e quando Kelly se torna figur investig pela polícia; e o segundo quando ela está foragida nesse mundo, encontrando qualquer coisa pelo caminho.

Se no primeiro caminho apresentado temos uma mistura inexata de um horror/suspense, pela tensão dos olhares de Amarantos e de uma carnificina inerente para qualquer home em cena, o segundo reflete um olhar mais perdido da própria narrativa. Algumas referências são até um tanto quanto óbvias, como a maneira de tentar quase expressar um surrealismo à brasileira na aparição das travestis (que remete A Montanha Sagrada, de Alejandro Jodorowsky, e Pink Flamingos, de John Waters), até mesmo a forma como todas as condições dramáticas que aparecem de início são usadas sempre sob artifícios vazios – como na conexão com a irmã que não tem base nenhuma de estruturação na própria obra.

Mesmo tentando reforçar em diversas vias esse olhar crítico para um machismo que persegue a personagem, Serial Kelly tenta mais se encontrar no seu experimentalismo da encenação, que, em vários instantes, relaciona momentos sem sentido algum com a cena anterior, buscando gerar uma comédia aleatória. Essa mistura de gêneros até funciona em certos períodos, porém faz o filme soar, a cada nova cena, em cada vez mais vazio. A tentativa de Guerra de criar um olhar muito específico para esse universo, o tornando um tanto quanto indecifrável, poderia funcionar se ele mesmo buscasse usar as poucas bases que constrói.

Serial Kelly é um longa que chega até a ser divertido dentro da sua abordagem, impossível dizer que não. O grande problema é como ele está apenas amparado em uma condição narrativa nula no próprio jeito que a película se observa. Inicialmente, é dramática e de tensão, depois cômica, depois experimental, depois surreal e de comédia de absurdos. No meio disso tudo, falta alguma coisa que encaixe, que gere qualquer coerência em si mesmo. Dessa forma, é como se o filme buscasse demonstrar tanto e ousar falar de tantas coisas de um jeito até atraente, porém faltando qualquer tipo de proposição em si mesmo que soe como algo ao fim.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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