Crítica: Paraíso Perdido

Após uma cena inicial que serve como pontapé inicial para uma das espalhafatosas tramas do novo filme de Monique Gardenberg, a figura de Erasmo Carlos surge no palco da Paraíso Perdido, abrindo uma das noites na boate. A imagem do cantor, em sua primeira interpretação após trinta e quatro anos longe das telas, é uma das mais impactantes de todo o filme. A diretora tem sucesso, logo nos primeiros minutos de projeção, ao atingir um ideal de apego desvergonhado ao passado, conseguindo imprimir bem uma noção de nostalgia que o filme fracassa em trazer ao longo de seus cento e vinte minutos. O filme de Monique não sabe muito bem onde quer chegar, desperdiçando interpretações inspiradas enquanto tenta se agarrar a qualquer noção de unidade temática.
A falta de unidade temática não se reflete visualmente. Pois, o filme parece confortavelmente decidido a apostar numa luz neon e uma encenação completamente despreocupada de ter qualquer cuidado em fazer aquilo tudo parecer minimamente cinematográfico. Existem alguns lampejos um pouco brilhantes ao longo do filme, como o plano inicial da sequência onde a personagem surda de Malu Galli está agarrada num amplificador que toca música num volume altíssimo, acordando toda a vizinhança. Mas todos os breves momentos de inspiração imagética culminam numa encenação desleixada, fazendo qualquer tentativa de intuir pose melodramática à trama soar puramente canastrona.

A ausência de esforço para tentar intuir ideal melodramático ao filme acaba criando situações esdrúxulas graças à já mencionada não-inspirada encenação e à uma unidimensionalidade quase caricatural de todos os personagens. A participação de Marjorie Estiano é a representação máxima dessa vontade do filme em atingir uma estética transgressora e acertar numa canastrice meio desleixada: sua personagem Milene é unicamente introduzida para a criação de uma relação poliamorosa que mal dura vinte minutos.

Assim, o filme segue a linha de diversos filmes brasileiros produzidos nos últimos cinco anos: tenta ser transgressor e progressista ao abordar pautas sociais recorrentes no Brasil pós-golpe de maneira rápida e rasa, tentando tratar em um curtíssimo espaço de tempo temas complexos como a homofobia, a misoginia e a índole de policiais. Ao mirar em inúmeros assuntos com o intuito de alcançar a representatividade máxima, o filme tem o mesmo destino de outros que usam abordagem de opressões unicamente para tornar um roteiro mais “engajado”: resolve tudo que foi inicialmente levantado da maneira mais simplista e superficial possível. Infelizmente, o filme lembra o recente vencedor do Óscar, Três Anúncios para um Crime, ao ser completamente desleixado quando trata da índole de um policial corrupto e quando resolve uma situação de homofobia internalizada com uma patética referência mitológica.

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Ainda que bem intencionado e veículo de grandes interpretações, o filme, que estreia nessa quinta, não chega muito longe. Ele tenta tratar de temas sociais bastantes recorrentes na atualidade, mas ao não ter o mínimo cuidado com a construção imagética básica das inúmeras tramas e nem possuir uma encenação preocupada em dar corpo aos personagens, acaba se tornando muito simplório e às vezes até ofensivo. Assim, há raros momentos inspirados e pouquíssimas cenas que possuem a força dramática necessária para discutir os temas abordados. O filme pode até usar belas canções, só que a sufocante necessidade de querer ser atual e progressivo sem a mínima preocupação cinematográfica não lhe permite existir além de um mero rascunho.

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