Crítica – Rambo: Até o Fim

A franquia Rambo, ao longo de toda sua trajetória, ficou bastante marcada pelo seu grande momento alto – ou seja, o primeiro filme, de 1982. Após isso, o que pode se ver é uma sequência de continuações sempre perdidas, apostando em um cinema direto de ação dominante durante os anos 80. Isso teve uma certa mudança quando a saga retornou em 2008, para o quarto longa, na qual, dirigido por Sylvester Stallone, soube buscar uma contemporaneidade maior. A direção possui essa adequagem ao período, com as câmeras tremidas de Transformers e consequências bastante sangrentas. Pois bem, chegando em 2019, Rambo: Até o Fim parece buscar ser um emaranhado de todos esses elementos. Uma pena ele só funcionar pelo mais básico de toda a série: as mortes.

Na história aqui, acompanhamos John Rambo (Stallone) em um período mais debilitado de sua trajetória, porém sempre buscando ajudar a todos e fazer o bem. Ele parece não querer mais se meter em quaisquer confusão. Suas intenções são meramente de ajuda em circunstâncias de tragédia e um carinho pela sua filha de criação, Gabrielle (Yvette Monreal). O problema é que essa acaba indo até o México realizar o desejo de reencontrar seu pai, na qual a abandonou. Essa fuga ocasiona um intenso problema quando a mesma é capturada por uma gangue de tráfico de mulheres. Rambo, então, vai até lá em busca de salvá-la.

A direção de Adrian Grunberg parece, ao início, tentar seguir a trajetória do longa anterior. A busca por humanizar ainda mais o personagem título é a grande tentação do enredo, mesmo esse possuindo um total controle narrativo e ser essa máquina de matar de outros tempos. Há até uma tentativa de justificativa disso (“Eu estou apenas me controlando”), contudo a obra parece mais interessada em isso ser uma mísera fagulha. Sua humanização é, novamente, passar por cima de tudo e de todos, realizando uma intensa quantidade de mortes. Obviamente, isso possui um lado positivo pela diversão na qual a série sempre esteve. Mesmo assim, estamos vendo a desconstrução – sem um real desenvolvimento – do protagonista apresentado a poucos minutos atrás.

Essa dinâmica meio perdida acaba favorecendo ainda mais a ação sem freio da narrativa, quando se inicia. Não é algo nem um pouco comporável com o que tem sido feito atualmente com, por exemplo, a franquia John Wick ou até em Mad Max: Estrada da Fúria. A intenção por parte de Grunberg é gerar o poder naquela figura principal a ponto de poder matar de todas as formas. Nesse sentido, ele segue bem a fórmula, de John sofrendo inicialmente e criando algo totalmente destruidor mais ao fim. Essa crescente da ação funciona bem mesmo no terceiro ato, quando estamos de frente a toda uma tensão construída através dos pequenos elementos da montagem (som, corte, ruídos) de Carten Kurpanek e Todd E. Miller.

Essa resolução, apesar de extremamente rápida, acaba sendo a grande força motriz dessa trama. Em um vazio de elementos e uma busca em colocar Rambo como uma espécie idêntica ao personagem de Liam Neeson em Busca Implacável, a construção dramática e de gênero aqui parece ser simplesmente uma cópia. Uma cópia, impressionantemente, até mesmo da saga título, algo ainda não realizado por nenhuma das 3 produções posteriores a original. Falta um material próprio e até original para conseguir consolidar qualquer coisa aqui.

Com isso tudo em mente, Rambo: Até o Fim parece claramente um filme dos anos 90 deslocado de seu tempo. E isso é possível ser dito em um sentido nada bom. A xenofobia mais clara aqui perante mexicanos e uma certa exaltação armamentista geram uma consolidação narrativa quase parelha a Trump. Não que Stallone seja realmente um defensor do presidente americano ou qualquer coisa assim, contudo os ideais apresentados aqui refletem isso bem. E refletem em um enredo sem saber bem para aonde vai, sustentado apenas em um passado remoto de boas memórias do público – a nostalgia – e no gore da ação em seu fim.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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