Crítica: Turma da Mônica – Laços

Embora o cinema brasileiro seja tão rico quanto o de qualquer outro país, é inegável que há mais espaço para certos tipos de filme em território nacional do que para outros. Independente de sua qualidade ou valor artístico, os maiores destaques do cinema brasileiro, principalmente em questão financeira, são as cinebiografias de personalidades icônicas ou comédias do selo Globo Filmes. No entanto, esse cenário tem mudado de maneira gradual, principalmente com o terror no espaço independente, e agora com as adaptações de quadrinhos. Se em 2018 o grande público conheceu O Doutrinador, através de transposição para as telonas, este ano o efeito é reverso: a Turma da Mônica ganha seu primeiro longa com atores de verdade, com história baseada na graphic novel de Vitor e Lu Cafaggi.

Os personagens criados por Maurício de Sousa são provavelmente alguns dos mais famosos do imaginário brasileiro. A tarefa do diretor Daniel Rezende não era nada fácil: seria preciso não só trazer figuras icônicas para um novo meio, mas também fazer delas pessoas convincentes que dialogassem os fãs novos e com os fãs antigos, além de preservar suas características essenciais de cada um. E é uma ótima notícia para todos que todo o time por trás desse projeto tenha conseguido entregar um filme, mesmo tendo suas falhas, consegue ser autêntico, carismático e inevitavelmente nostálgico.

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Arte da HQ que inspirou o filme

A história começa com a típica rotina da turma. Cebolinha está tramando mais um de seus “plano infalíveis” para conseguir roubar Sansão, o coelho de pelúcia da Mônica, e conseguir enfim se tornar o dono da rua. Para a surpresa de absolutamente ninguém, nada dá certo e Cebolinha e seu fiel escudeiro Cascão acabam levando mais uma surra. O pequeno permanece focado em seu plano até que seu amado cachorrinho Floquinho desaparece. Percebendo que o amigo precisa de ajuda, Mônica, Cascão e Magali se unem não só para descobrir quem levou o cãozinho como também trazê-lo de volta para casa.

Com uma premissa simples (decisão acertada), Laçosé uma película que se preocupa menos com a sua história e mais com a interação desse pequeno grupo de amigos e como funciona a dinâmica entre esse grupo de personagens que, apesar de serem tão conhecidos do grande público brasileiro, são apresentados de maneira “inédita” pelo formato live-action. Essa transposição é orgânica e eficiente, com as características de Mônica, Cascão, Cebolinha e Magali sendo referenciadas ao longo da trama até mesmo ao ponto de se tornarem um conflito durante os momentos mais importantes. É um elemento que acaba sendo utilizado mais vezes do que o necessário, mas não a ponto de se tornar um defeito. No entanto, é preciso apontar como em nenhum momento esse universo e essa mitologia de Maurício seja apresentada. Tudo no filme, desde as pequenas referências verbais e visuais até questões importantes dos protagonistas, conta que a audiência conheça bem como funciona o bairro do Limoeiro. Se essa é uma decisão equivocada ou acertada, é outra discussão.

Daniel Rezende traz novamente a importância do senso estético de uma história para que ela funciona bem. Enquanto seu primeiro filme – Bingo: O Rei das Manhãs – usava e abusava da estética neon dos anos 80 para trabalhar personalidade do protagonista Arlindo (Vladimir Brichta), aqui o mesmo vale para os anos 60. A atmosfera colorida e pueril é um reflexo da sensibilidade com a qual ele deseja abordar essas crianças, assim como a personalidade delas em si. É inocente e divertido da melhor maneira possível. Algo que seria muito mais difícil se o elenco mirim composto por Giulia Barreto, Gabriel Moreira, Laura Rauseo e Kevin Vechiatto não entregasse performances tão genuínas e dedicadas. Dirigir crianças não é tarefa das mais fáceis e Rezende com certeza se mostrou bom nesse aspecto. A participação dos adultos também foi acertada, com destaque para a atriz que interpreta a Dona Cebola, em uma participação que poderia ser esquecida não fosse pela sensibilidade e talento da intérprete.

Talvez o único crime do filme seja confiar tanto nas imagens que entrega e como elas vão atingir quem está assistindo a ponto de sacrificar um bom ritmo e até mesmo uma certa coesão narrativa por momentos fofos. Isso também é dolorosamente notado durante o clímax, que se estende bem mais do que poderia e deveria, abusando um pouco da paciência do espectador mais calejado e talvez até das crianças mais agitadas.

Turma da Mônica: Laços se mostra então como um filme inesperadamente necessário ao cinema brasileiro. Uma produção “grande” o suficiente para atrair público, mas feita com tanto esmero e com valor sentimental de sobra. Uma perfeita transposição de gibis para as telas, talvez pecando em deixar a famosa dona da rua com menos espaço do que merece. Mesmo que a trama que inspirou o filme seja mais ligada ao Cebolinha, muita coisa acaba sendo mudada numa adaptação e dar um pouco mais de destaque à mocinha mais famosa dos quadrinhos brasileiros não seria prejudicial ao filme.

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